Comentário

Andreza e Tatiana

24 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, Prof. Dr. da UFPel, cantor, ator e diretor teatral

Quando ingressei na UFRGS, em 1978, depois de um ano enfiado nos livros, não havia muitas possibilidades de cruzar pelos corredores da universidade com docentes e professores negros. Muito menos, com estudantes pobres. Com funcionários da limpeza negros e pobres, sim. Por caminhos ofuscados, uma plutocracia tupiniquim conseguiu que a injustiça e o racismo fossem naturalizados e entrassem em nosso vocabulário de desprezos, ofensas e discriminação. Dar para quem já tem e despir quem está nu fizeram parte da matriz das políticas brasileiras desde o Brasil Colônia, ressuscitada agora, através do bom marketing e da sem-vergonhice, pelo governo Temer. Quando no governo Lula foi criado o sistema de cotas, especialmente para pobres e negros, teve gente que esbravejou subtraindo da memória os séculos de escravidão, as condições em que os negros foram jogados, o acesso tardio à educação formal e o nosso vocabulário. Projetos de extensão da UFPel também buscam, através da educação para a cidadania, diminuir os efeitos da desigualdade social. Em 2010, o Projeto Multidisciplinar de Extensão, Quilombo das Artes, deu inícios às suas ações no Cras São Gonçalo e na Escola Nossa Senhora dos Navegantes, no bairro Navegantes II, em Pelotas. Muitas crianças, adolescentes e adultos do bairro participaram, ao longo dos cinco anos, de atividades ininterruptas. Ingressar na Universidade era algo que não estava no horizonte dos participantes. O destino traçava um caminho de gravidez precoce para as meninas, de trabalhos mal remunerados para os meninos, Templo e sujeição. Andreza e Tatiana, duas meninas negras e pobres, entraram no Quilombo em seus começos e nele permaneceram até sua interrupção, em 2015. Seguiram em projetos similares, conquistando um horizonte de escolhas. Muito esforço e resiliência para não se deixarem seduzir pelos apelos do senso comum que apenas renovam a condição de pobreza e introjetam uma incapacidade fantasmal. As duas decidiram que a universidade, sim, era factível e um direito. Depois de finalizarem o ensino médio, trabalharam nos projetos Mais Educação e Escola Aberta, a convite da direção da escola. Estudaram como puderam tentando superar a insuficiência do ensino público. Formaram o Grupo de Teatro Filhos de Tereza, tratando dos temas que as afetam diretamente: racismo e injustiça social. Sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes, tornaram-se protagonistas de suas conquistas e de seu olhar sobre o mundo. A postura e as decisões das duas meninas foram contaminando amigos e familiares. Mais gente viu que outra vida é possível. Tatiana Cuba ingressou em Letras, em 2017. Andreza Mattos, em Licenciatura em Teatro, agora, em 2018, depois de se ver frustrada no Enem de 2015, 2016 e 2017. Seu irmão, Alison Mattos e o colega do Quilombo, Nilvo Lopes, ingressaram em 2017, na UFPel. Andriele e Franciele, as gêmeas do Projeto, entraram na Unopar e na UFPel, respectivamente, em 2015 e 2016, sob a mesma decisão construída. Uma coisa boa vai puxando outra: uma das irmãs mais velhas de Andreza e Alison, Cristiane, mãe da Vitória, também ingressou na UFPel neste ano. Andreza e Tatiana são mulheres referência para todos. Elas veem o mundo como nenhum de nós. Nossa felicidade é imensa!

 


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados