Opinião

A insanidade armamentista nos EUA

22 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cássio Furtado. Professor e jornalista

Centenas de pessoas choram e se abraçam. Empunham bandeiras americanas e erguem velas e crucifixos. Ao final das homenagens, 17 balões prateados são soltos ao céu.

Um dia antes, em 14/2, os Estados Unidos foram, uma vez mais, vítimas de sua dolorosa rotina de violência causada por armas de fogo. Nikolas Cruz, de 19 anos, um ex-aluno da Stoneman Douglas High School, em Parkland, na Flórida, invadiu a sua antiga escola armado com um rifle AR-15, atirando em alunos e professores. Matou 17 pessoas e feriu 14.

Desde a tragédia, o debate nos EUA e no mundo tem sido intenso sobre a insana realidade do país, que libera o porte de armas de forma praticamente irrestrita, sem se importar com os altíssimos custos humanos ao longo das décadas.

Os números são impressionantes e melancólicos: no mundo todo, existem aproximadamente 650 milhões de armas de fogo nas mãos da população civil. Dessas, quase 50%, ou 310 milhões, estão nos EUA. O segundo país com mais armas no mundo, a Índia, tem somente 46 milhões. Mais: nos últimos 50 anos, se incluirmos as estatísticas de suicídios, mais estadunidenses morreram vítimas de armas de fogo que todos os soldados do país mortos em guerras em toda a história.

Nos EUA, o direito de portar armas está na Constituição. Foi dado pela segunda emenda, aprovada em 1791. Para a maioria dos conservadores, tal direito é tão importante quanto as liberdades individuais, como a liberdade de expressão e de movimento.

E o debate sobre as armas está, de forma muito forte, inserido na disputa político-partidária do país. O Partido Republicano, que tem Donald Trump e a família Bush como seus principais expoentes, defende ardorosamente o porte de armas praticamente sem limites. O Partido Democrata, sigla de Barack Obama e de Bill e Hillary Clinton, propõe há décadas a imposição de restrições à posse de armamentos, como uma checagem de antecedentes mais rigorosa e a proibição de um grande número de armas automáticas.

A Associação Nacional de Rifles (NRA), principal entidade de defesa das armas nos EUA, gastou mais de 50 milhões de dólares somente na última eleição. Dos 435 deputados federais em Washington, mais da metade recebeu apoio financeiro da NRA ou de organizações que defendem os armamentos.

Como os interesses e investimentos são estratosféricos, por mais que as tragédias se repitam e o grande público se comova por algumas semanas, pouquíssimas mudanças de longo prazo acabam ocorrendo na legislação.

Em outubro de 2017, Stephen Paddock, de 64 anos, alugou dois quartos no hotel Mandalay Bay, em Las Vegas. Do hotel, com mais de 20 armas, a maioria automática, matou 58 pessoas e feriu mais de 400 que estavam em um festival de música country. Em 2012, Adam Lanza, de 20 anos, matou 28 pessoas, incluindo 20 crianças de seis e sete anos, na Escola Primária Sandy Hook, em Newtown, Connecticut. O tiroteio mais emblemático da história dos EUA, entretanto, veio muitos anos antes. Em 1999, os alunos Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, de 17, mataram 12 alunos e um professor na Columbine High School, no Colorado.

A cada tiroteio, o debate entre Republicanos e Democratas é reaceso. Após o ataque em Sandy Hook, em 2012, Obama propôs, uma vez mais, banir os armamentos automáticos, geralmente utilizados em guerras mundo afora. E o Congresso, de maioria Republicana, rejeitou sua iniciativa. Desde então, já aconteceram 1.670 ataques com armas nos EUA. Somente em escolas, foram mais de 200.

No final do ano passado, após os ataques de Las Vegas, Trump afirmou que seria oportunismo discutir qualquer restrição às armas em meio à tragédia de centenas de famílias. Como nada foi feito, mais de 1.800 pessoas já foram mortas por armas de fogo nos EUA somente em 2018.

Em meio à inércia legislativa, há algumas razões para otimismo. Há 40 anos, 51% dos estadunidenses tinham alguma arma de fogo em casa. Hoje, são 36% dos cidadãos. Com a redução expressiva do número de pessoas com armamentos, o poder político do lobby das armas, mesmo que ainda pujante, perde uma parcela importante de seu poder.

Com a fortíssima comoção popular dos últimos dias, principalmente entre jovens estudantes e seus pais no país afora, políticos conservadores estão reconsiderando seu apoio cego à indústria armamentista. É bom lembrar que 2018 também é ano eleitoral nos EUA, quando todos os deputados federais e 34 senadores concorrem à reeleição.

E será a pressão popular nas ruas e nas redes sociais que poderá produzir as mudanças necessárias, mesmo que com décadas de atraso, restringindo armas automáticas e demandando checagem de antecedentes - ações consideradas elementares e racionais mundo afora, mas até agora completamente negligenciadas nos EUA.


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