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Orgulho vexado

20 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr Pérez da Silveira, pedromo0987@gmail.com

Do objeto e suas ressonâncias

Antes de Dilma Rousseff ser impedida de prosseguir seu mandato por conta de votações sequenciais na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, mediante a acusação de haver cometido crimes de responsabilidade, viu-se um grande número de pessoas tomar as ruas ecoando gritos de ordem contra ela, o ex-presidente Lula, o PT e contra os partidos de esquerda em geral. O objetivo era, pelo que se viu, leu e ouviu, atacar as práticas de indefensáveis dispêndios administrativos, consubstanciados na aceitação de verbas não contabilizadas para custeio de campanhas (caixa 2) e na distribuição de dinheiro mal havido (propina) entre candidatos, assessores e amigos para proveito estritamente pessoal.

Estimulados por estratégias ideológicas de uma nova direita, corporificada quase sem exceção em grupos financiados e subservientes à Fiesp, a meios de comunicação empresariais, particularmente a Rede Globo, e a grandes corporações financeiras, esses indivíduos, tomados por uma revolta de enredo desorganizado, mas unidos por um desejo apresentado como comum a todos, o de combater a corrupção, apropriaram-se de um feroz discurso moralizador. De uma maneira geral, fizeram crer que a gestão de Dilma implicava apenas circunstancialmente o governo que deveria ser enfrentado, pois ocupava, naqueles momentos efervescentes, o poder institucional, mas toda corrupção deveria ser banida e todo corrupto severamente punido. Os apoiadores dos protestos conseguiram ocultar seus mais verdadeiros propósitos (a olhos não atentos, claro), de maneira a não se supor que, mais do que a corrupção em si, era a esquerda o campo político a ser atacado.

Daí até a legalização do impeachment tudo foi uma questão de perfectibilização formal do processo: o pedido de impeachment, com a imputação de crimes fiscais, foi assinado por dois juristas e submetido à Câmara e ao Senado, obtendo votações favoráveis ao impedimento. Temer assumiu o governo em 12 de maio de 2016, e pouco a pouco foi-se tornando, com ele e muito para além dele, cada vez mais claro um planejamento golpista, com o apoio institucional de setores do Judiciário e do Ministério Público Federal, além da sustentação privada de lobistas interessados na troca, para muito pior, da orientação administrativa do país, que já não ia bem. O conjunto desses atos e medidas mostrou então o Brasil como um estado-nação posto à venda exatamente a alguns desses negociantes da república, como um armazém imenso que oferecesse a seus fregueses desde empresas públicas até o subsolo marítimo, onde recentemente descobriu-se imensa riqueza petrolífera em profundezas abissais. Grandes esforços institucionais passaram a ser realizados na direção de alterações tremendamente nocivas ao que possui grande valia à população, como é o caso da Previdência Social, cuja radicalíssima reforma tem sido conduzida em ambientes clandestinos e suspeitos, sem qualquer mediação democrática. Aliás, tudo é duvidoso no governo Temer, inclusive ele, que parecia ser o protagonista fundamental do golpe “branco”, mas que tem se revelado um empregado útil do capital empresarial. A quais senhores serve não sabemos. Essencialmente venal e ímprobo, Temer dá mostras de ser um chefe assustado a passar, por conselho daqueles que o têm nas mãos, a ideia de que está confiante em suas intenções e traz consigo um coração calmo. A intervenção no Rio de Janeiro terá desdobramentos, e precisamos entendê-la conjuntamente com a questão da reforma previdenciária, principal objetivo do governo até ontem, mas na qual já não se fala, a não ser para dizer-se que o Presidente pode suspender a intervenção fluminense, votar as novas regras e a seguir retomar a condição interventiva, feito um patife indigno que gargalha, solitário e louco, diante do mal.

Diante de tanto, cresce a impressão de que o Brasil experimentou, realmente, um golpe de Estado, mesmo entre os que vinham firmando posição contra essa hipótese. Esses acontecimentos vão sendo, com o tempo, melhor compreendidos, assim como esclarecida vai ficando a oposição à esquerda política, particularmente a Lula, inaceitável às mentalidades burguesa e pequeno-burguesa nacionais. Agora, muitos compreendem a engenharia do golpe, mas a responsabilidade pelos desastres atuais não será assumida pela direita e pelos inconsequentes. Mais por razões de orgulho vexado do que por preservação de convencimentos. Tarde demais para todos nós, contudo. Um pequeno grupo é, talvez mais do que sempre foi, proprietário do Brasil.


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