Artigo

Aos meus inimigos, uma carta

19 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa De Piratini - prosasousa@gmail.com

Fazes u’a mostra de arte e todo mundo gosta - te alerta - o que terei deixado de pintar para que surja unanimidade? Pablo Bobbio, meu professor de pintura, é quem me passou essa. É uma dica buena, o pessoal é tão cavalarmente variado que é impossível que se tornem unânimes, seja no que for. Mete aí no mesmo desvão: não tem como não ter inimigo. Nem Cristo escapou.

Em assim sendo, por lealdade, passo dois avisos aos meus fidalgos inimigos.

Aviso um. Nasci entre pedra e mato, num lugar chamado Pedregal, topo da Serra dos Tapes. Me criei logo ali, na Serra das Asperezas, e de guri me levavam a acampar no Paredão, aqueles cem metros de rocha a pique, na beira do Camaquã, no fundão de Piratini. Abóbora, feijão e mogango com leite gordo era o que se comia. O dia no lombo do gateado, a bombacha folgada, o pé no chão, o descanso na sombra da coronilha, o três costelas sempre à mão, a vista a se perder. Não é que goste de inimigo, mas se lo hay, que venha, sempre tem gente em casa. Ou estou eu ou tá essa bagualama de amigos, noite e dia serás atendido. A casa dispõe de foice, enxada, pá de corte, pá de concha, marreta, roça-mato, picareta, arado, grade e tudo mais pra fuçar na terra. Todo xucro palanqueamos no palanque de guajuvira, em cima da terra só a metade do que está enterrado, possa corcovear.

Aviso dois. Não me ocupo de vingança, podes ficar descansado. Caso me consigas fazer alguma, não te procurarei pra dar o troco, te relaxa. Sempre achei que vingança é de uma pobreza marasmática, coisa de boca-aberta, não leva a nada, a não ser me emparelhar contigo e falar a mesma língua. Deixo de me ocupar de ti, prefiro seguir o apóstolo e te colocar na minha moldura preferida: ante o herege, evita-o. Tenho mais o que fazer. E, se tal não bastasse, te digo que teu gesto de ódio é, ainda que às avessas, uma tentativa de aproximação, mas, não estou interessado, sigas adiante, há quem fale teu idioma, procura no vasto cardápio humano. Convém lembrar, o ódio antecede ao amor, talvez te sirva.

É preciso começar a amar para não enfermar, disse o Velho Professor, em 1915, plena Primeira Guerra.


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