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A vida, o tempo e o trabalho

16 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, Professor, doutor do Centro de Artes da UFPel; cantor, ator e diretor teatral

Tempo tempo tempo tempo, és um dos deuses mais lindos (Oração ao tempo - Caetano Veloso)

As férias chegaram ao seu fim e eu, ainda podendo exibir o bronzeado dos dias de sol em Punta Del Diablo e em São Francisco do Sul, em Santa Catarina, já me pego sonhando com as próximas, contando os meses, semanas e dias, fazendo mil planos. Dizem que o passar dos dias corre mais rápido quando a gente devaneia.

Oxalá! Para não morrermos exauridos e desesperançosos com a preguiça das horas laborais, a divina providência planejou para este ano, uhuuu, muitos feriadões. Embora alguns empresários esbravejem contra o calendário abençoado, a verdade é que todos nós trabalhamos muito melhor, com ânimo e criatividade, quando temos feriados em abundância, quando temos tempo para nós mesmos, para passear, para a família e os amigos. Evasão e ócio, santos remédios contra o embrutecimento e a burrice. Quem de nós ainda consegue ficar admirando uma paisagem, um nascer e um por de sol? Quem de nós faz do tempo um momento de meditação ou para ler um bom livro despreocupadamente? Quem de nós tem tempo para escolher o que fazer do seu tempo e de sua vida? Quem de nós consegue abraçar demoradamente as pessoas que ama? Quem de nós se permite ouvir o mar ou o riacho sem cobrir todos os silêncios e sons da natureza com caixas de som poderosas e hits midiáticos do verão? É vero, a canseira de um ano de muito trabalho em que a rotina não nos permite uma pausa para renovar o oxigênio mental, os afetos e as decisões, nos vai enrijecendo, cristalizando manias, matando a libido, nos fazendo perder as estribeiras por coisa nenhuma, nos levando a consumir como se fosse uma terapia, nos congelando frente à TV como se fosse uma escolha livre. Dias repetitivos e abatumados que ofuscam nossa visão sobre nós mesmos. Nossa sensibilidade fica restrita às sensações de frio e calor. Também! Nossa CLT reza pela cartilha das 44 horas semanais, indo contra tudo que envolve o IDH, uma vida saudável, relações fraternas e momentos de alegria. Isso tem que mudar, ou vamos seguir nos esfumaçando com o passar dos anos, trabalhando feito bestas com antolhos obstruindo a percepção do que acontece. Quem sou eu? Por que trabalho tanto? Por que compro tanto?

Especialistas da saúde, do esporte, da educação, da psicologia falam da importância de cuidamos de nossos hábitos, de nosso corpo, da prática de uma atividade física, de acompanharmos de perto o desenvolvimento dos filhos, da relação com a família e com amigos, das horas para o lazer, da dedicação de tempo à leitura, às artes, à pescaria, ao sexo. Tudo isso que é muito bom, requer o direito de escolha e tempo. Ora, ora, as 44 horas semanais subtraem a vida do tempo que mal vemos. Talvez, por isso, enlouquecemos no trânsito, nas redes sociais, na arquibancada do Bento Freitas ou da Boca do Lobo. Para as próximas eleições, quero uma candidata que defenda 30 horas semanais. Acredito que seremos todos e todas muito mais felizes. Alguém, dias atrás, em um artigo no DP, lançou o nome da Fernanda Montenegro. Hummm... é para se pensar!

Fazendo uma dobradinha com o Pepe Mujica: 30 horas e, depois, só curtindo. Ou será que estou devaneando? Seja lá como for, Fernanda e Mujica, a Beija Flor, a Paraíso do Tuiuti e a Mangueira me representam. E que as férias não se demorem em chegar!


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