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Putin e o retorno à Guerra Fria

08 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cássio Furtado, professor e jornalista

O ano era 1975. O mundo vivia a Guerra Fria, o auge do conflito entre os Estados Unidos e a União Soviética. Mais que uma guerra de fato, aqueles tempos simbolizavam o duelo ideológico, armamentista, tecnológico e nuclear. O enfrentamento entre as superpotências também tinha uma dimensão fundamental travada entre as agências de inteligência - a CIA, dos EUA, e a KGB, da União Soviética.

Vladimir era um jovem oficial de inteligência soviético. Formado em Direito, aprendeu alemão e trabalhou no departamento investigativo da KGB em Leningrado, a atual São Petersburgo. Anos depois, na década de 1980, viveu em Dresden, na Alemanha Oriental, comandando o departamento de fronteiras.

Ao final daquela década, em 1989, ruiria o Muro de Berlim. Sua queda foi fruto de anos de decadência do Bloco Socialista, incapaz de competir com a pujança econômica e militar dos EUA e de seus aliados na Europa Ocidental. Nos anos seguintes, milhões de alemães orientais fariam a travessia ao capitalismo, inundando a Alemanha Ocidental. Pouco mais de dois anos depois, em dezembro de 1991, a União Soviética entraria em colapso. Vladimir Vladimirovitch Putin, a essa altura, havia renunciado como oficial da KGB e ingressado na vida política.

Putin ascendeu de forma meteórica na política russa. Em pouco mais de dez anos, foi assessor da Presidência, chefe dos serviços secretos KGB e FSB, e primeiro-ministro. Em 1999, quando o presidente russo, Boris Iéltsin, já doente, decidiu renunciar e se retirar da vida pública, ele anunciou o seu sucessor: o enigmático Putin, então com 47 anos.

Desde então, ele já foi eleito presidente em três eleições. Em março, disputará seu quarto mandato, e todas as pesquisas apontam para mais uma vitória.

Putin comanda o país, hoje uma das maiores economias do mundo, com mão de ferro. Mantém a Rússia unida, apesar da proliferação de movimentos separatistas. Foi o responsável pela transição ao capitalismo, mas reprime com vigor e sem qualquer pudor toda e qualquer oposição ao seu mando.

Desde 2011, na Guerra Civil síria, a Rússia apoia a ditadura de Bashar Al-Assad, o presidente sírio que promove as mais variadas atrocidades, inclusive jogar gás no próprio povo, para manter-se no poder.

Em 2013, quando Edward Snowden, um ex-agente da NSA, a agência de segurança dos EUA, decidiu expor o principal programa de espionagem dos governos Bush e Obama e fugir de seu país, ele encontrou na Rússia de Putin o refúgio que precisava.

Mas a principal cartada do presidente russo viria no ano seguinte. No início de 2014, o presidente ucraniano Viktor Yanukovych, que era apoiado pela Rússia, perdeu o poder após reprimir protestos pró-União Europeia e matar mais de 100 pessoas. O Congresso ucraniano colocou, em seu lugar, um presidente interino pró-UE e diametralmente oposto aos interesses russos, que incluíam o aumento dos preços do petróleo e do gás natural. Putin, então, ordenou o impensável aos seus soldados: invadir o país vizinho, e anexar a Crimeia, região da Ucrânia vital por seus portos, bases militares e acesso ao Mar Negro.

A reação internacional foi instantânea: sanções comerciais impostas pela UE e pelos EUA, e ameaças repetidas da ONU. Líderes mundiais, como Obama, empunharam manuais de direito internacional, afirmando que, em pleno século 21, a Rússia não poderia pegar um pedaço de um outro país soberano. Em poucas semanas, apesar dos protestos, os livros russos já mostravam a Crimeia como uma república russa, e o rublo russo já circulava na região.

Na mente de Putin, de um maquiavelismo inigualável, ele não só pode, como deve, tomar atitudes autoritárias, militaristas ou expansionistas, caso elas defendam os interesses nacionais russos ou expandam o seu próprio poder.

Para lapidar a imagem da Rússia no exterior, Putin patrocina os principais eventos esportivos mundiais. Os russos receberam as Olimpíadas de Inverno, em 2014, e receberão a Copa do Mundo de 2018.

Nas últimas semanas, Alexei Navalny, o principal opositor russo, foi proibido de participar das eleições presidenciais do mês que vem. Mais que isso, ao decidir contestar a decisão do governo e promover manifestações populares, foi preso.

Putin, portanto, chega a sua quarta eleição para presidente como o franco favorito para permanecer no poder até 2024. O caminho está aberto para que o ex-agente de inteligência da União Soviética se converta em um dos principais líderes da história russa.

 


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