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O Hermenegildo e suas fascinações

06 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr Pérez da Silveira, Do objeto e suas ressonâncias
pedromo0987@gmail.com

Estive na praia do Hermenegildo entre quinta-feira e domingo. Fui levado para lá por um casal amigo, eles queriam descansar. O Gastal e a Neusa reservaram uma pousada de antigo amigo, o Fernando Plá, uma espécie de filósofo do Albardão capaz de contar histórias locais apropriadas às perspectivas do futuro da humanidade. Assim, no sul extremo do Brasil ouvimos relatos que, com o engenho do Plá, foram luminosos.

Uma cabeça inteligente e criativa favorece o convívio das almas. O apelido “Hermena”, retenção abreviada do nome, é um carinho dos que a frequentam. Ir para lá é uma aventura do espírito que, saindo indigente de sua origem geográfica, volta abastado de prazeres e reconfortado pela paz das suas areias. Para o Hermena, ao esquentar dos sóis estivais, muitos amigos meus se dirigem. Encontrei alguns por lá dessa vez. O Henrique Souza, o Ricardinho Petrucci, tão irmãos como o Gastal, lá estavam. Cruzei com outros amigos de muitos anos, como o meu colega de faculdade e mergulhão da gema, Itiberê Rodrigues, o Luiz Carlos Vaz, a serpente indomável do 13 horas, o Álvaro Hypolito, nosso Nenê velho de guerra, sempre disponível para análises políticas fundamentadas, sem perder a ternura e nem o humor, o Zé Duarte, com seu sarcasmo analítico seco e sagaz, a Analice Mascarenhas, com sua bela voz de contralto a acompanhar o Petra no violão. E fizemos churrascos, e bebemos e pusemos conversas fora, e nos divertimos. Vimos de novo nossas caras, entendemos melhor nosso lugar nesse desventurado mundo, esquecemos a internet, e voltamos às conversas da juventude. Nossos ímpetos de mudar a vida, transformar a sociedade e planejar nossas frágeis estratégias continuam de pé, mas já nos têm em tempo que vê nossas vidas avançando. Olhos cansados, filhos crescidos, netos já vindos, os copos voltaram às nossas mãos e as palavras às nossas bocas. Bebemos menos hoje, os corpos requerem mais cuidados, e comemos com mais moderação. Ainda nos animam revoluções, e provavelmente elas nos animarão até o nosso fim, mas uma espécie de realismo que as décadas cravaram em nossas mentes acabou por reduzir nossos ímpetos e modificar algumas ideias; enquanto isso, alguma leveza maior nos invadiu, e pudemos rir de bobagens infames e de assuntos que nos eram totêmicos.

O Hermena é a paz, com sua gente de sotaque único, com entonação que denota uma tonicidade crescente no fim das frases e uma língua que teima em ficar entre os dentes quando algumas consoantes são acompanhadas por vogais, como o “t”, faz do local uma orla única para repousar. Quando alta fica a noite, os olhos ganham uma fadiga boa e se fecham, tranquilos. Só abrirão para as pequenas aventuras das manhãs, ou para as charlas despreocupadas com os amigos. Um lugar assim, pousado na fronteira com o Uruguai, vem acompanhado de uma fala por vezes espanholada, que não forma uma linguagem propriamente de fronteira, como no Chuy, mas ganha uma condição linguística muito peculiar. O “vás” e o “qués” são palavras turísticas, os acontecimentos ganham protagonistas de ações hiperbólicas, valorizando as possibilidades da loucura e da estranheza, e quase abandonamos os desencantos que as verdades mais possíveis trazem consigo para nos entregarmos à inverossimilhança de um ambiente humano conduzido por fabulações, criatividades sem fim ou sobrevalorizações do nada. Aquelas fantasias põem forasteiros, como eu, no limite entre o conhecimento e a crença, vi que lá é poético mais acreditar do que bem entender.

A Márcia e eu desbravamos a praia encantada e ouvimos histórias espantosas, conduzidas pelo almirante Plá. No Hermena nada se deixa conduzir sem o espanto do inconcebível e do surpreendente, e o povoado parece sequer precisar de leis ou do Estado. Claro, regras e gestões são necessárias a qualquer grupamento humano, mas a impressão que se tem é que aquelas casas, ruas e pessoas, como que paradas no ar e no tempo, vivem com tal simplicidade que o funcionamento de tudo é espontâneo. Naquele balneário as pessoas se impõem sobre as ingerências institucionais com seu senso de coletividade, suas amizades e uns causos que não deixam a vida pensar sobre o sentido que não tem. No Hermena predomina um tipo de amor pelo agora que é igual ao amor pelo sempre, porque o sempre de lá é a graça do agora. E se vai vivendo ante o barulho eterno das ondas, que fazem da sua constância a melhor ilustração do que parece estar no fim quando está apenas no começo.

Mas agora voltei, e tudo pareceu estar mesmo no fim...


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