Artigo

Para não perder a fé e a esperança

06 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Manoel Jesus, Educador - manoeljss21@gmail.com

Meio da tarde durante a semana. A campainha toca. Não é horário comum de visitas. Vizinhos e conhecidos sabem que é tempo de tirar a dona França da cama, fazer a higiene e o café. No portão, a surpresa: dona Braulina, a vizinha com seus quase 90 anos, querendo fazer uma visita à sua amiga de longas décadas.

Nas mãos traz duas rosas e um pequeno embrulho. Levo-a até a poltrona onde a mãe está recostada. Coloco uma cadeira de tal. Deixo-as quase frente a frente. A mãe em seu estado de letargia, na sonolência onde ouve, mas muito pouco fala.

Dona Braulina com dificuldade de visão (restou-lhe uma vista) e pouca audição, mas que faz questão de estar junto à amiga com a qual teve uma história de convívio na criação dos filhos, trabalhando juntas nos finais de ano nas fábricas de conserva, e capacidade de atender àqueles na vila que precisassem de um pouco de atenção.

Duas rosas para serem colocadas na gruta de Nossa Senhora Aparecida - devoção comum - e no pacote um pano de secar louça, feito em saco de farinha, com desenhos de elementos da cozinha.

Coloquei as flores no vaso em frente à imagem. Embora não saiba como era o rosto de Maria, creio que não ficaria incomodada se eu pensasse que tinha os traços e o jeito de dona Braulina. Mulher, mãe, que o sofrimento não foi capaz de alquebrar o espírito, ao contrário, as tornou mais experientes e mais capazes de enfrentar a vida.

No tempo em que ficou junto da mãe, poucas palavras foram ditas, mas muito amor foi compartilhado. As “Marias” de nosso tempo ainda hoje cumprem sua missão: a mãe continua sendo “mãe”... mesmo que hoje seja hora de devolver todo o cuidado que já teve com os filhos. Ela retribui com um doce olhar o carinho que recebe.

Dona Braulina percorre as calçadas da nossa rua sem perder os elos que - muito mais do que a ligar ao passado - alimentam a certeza de que sua existência teve uma razão de ser. Das muitas perdas que foram ficando pelo caminho, soube - mesmo sentindo muita saudade - fazer do presente a razão para não perder a fé e a esperança!


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