Artigo

Nada é de graça, nem felicidade, João

05 de Fevereiro de 2018 - 08h25 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - Hospital Espírita, UCPel - prosasousa@gmail.com

Coisa braba desta vida é que não tem moleza: se se faz, tem consequência, se não se faz, tem consequência. Sem descanso pro vivente. Naquele dia em que saímos, estavas entediado, o que é bom para saber do tédio, isso tão desconhecido hoje em dia, com essa inflação de fones e música e imagem e game, qualquer coisa que te tire do enfaro onde te abancas. Não vais morrer por isso, aguenta no osso do peito e aprende a esperar, qual gaúcho bueno que, paciencioso, aguarda o gateado, sacudindo o milho no embornal. O que não mata, engorda. E não caias na conversa do exército contra o tédio, homens e mulheres ao redor, que, mal te veem aborrecido, saco cheio, quieto, já querem enfiar em ti a tediofobia deles: demasiado palavrerio, bolachinha, suquinho ou sacudida sem graça. Aguenta firme, já passa.

Falta um tirãozinho só pra completares 1 aninho. Te olhando de fora se te vê um guapo. Desde nosso obtuso ângulo, achamos que fazes o estilo bagualão, braço e perna socado que nem bolsa de lã, tens uma força descomunal e botas 80 por hora ao engatinhar. Além disso, és de boa boca, comes o que te dão e gostas meio de tudo. O pessoal, eu também, muito aprecia os teus gritos desusados, proferidos em momentos, acreditamos, de alegria, vai saber, mas que chamam atenção, chamam.

Outra coisa, a gurizada e a adultama, constatei, não conseguem tirar os olhos de ti, estão sempre querendo tua atenção, te dar colo, fazer gracinhas. Puxa as rédeas. Os pequenos são mais fáceis de levar, pois não padecem da crença de saber, daí encontrarão bom trote para brincadeiras e macaquices. Se vê que gostas. Já os adultos, ah, os crescidos, esses sofrem da cólica sapiencial, crendo, biblicamente, saber o que queres durante toda a tropeada. Quê te digo? Respira, vai passar. Infância é prova de paciência, João amado. Faz com os adultos como se faz com as ovelhas, mangueia de longe, não atropela, não mete o cavalo, que eles, ovelhas, se atrapalham e se esparramam, fogem da mangueira.

Acho eu, João, que estás no lombo do cavalo. Agora, é inventar e abrir picadas. Nada, nunca, tá pronto, nem é de graça, bagual do vô.


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