Artigo

Cartaphilus ou Ashasverus

02 de Fevereiro de 2018 - 08h49 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sérgio Cruz Lima - colaborador

Na História das lendas, JP Bayard narra uma gesta recopilada pelos cavaleiros cruzados em território sírio. Outros, porém, asseveram que ela é originária de terras alemãs e representa Wotan, o “caçador eterno”. Em solo teutônico, o personagem irrompe como “Der Ewige Jude”.

Cartaphilus ou Ashasverus, o Judeu Errante, era sapateiro. Labutava em Jerusalém, justamente na rua onde os condenados, carregando pesadas cruzes, dirigiam-se ao suplício. E Cartaphilus lá se encontrava na faina diária quando da passagem de Cristo. Enfraquecido pelo látego do soldado romano, Jesus parou na sua porta para descansar. Arrogante e desapiedado, o sapateiro gritou-lhe que prosseguisse a caminhada. Cristo mirou-o e falou: “Eu caminho, mas tu irás caminhar até o dia do meu retorno”. E assim foi. A partir daí, o Judeu Errante vagueia pelo mundo sem lenço nem documento. De cem em cem anos, dizem, ele cai enfermo, elanguesce e morre, na aparência, apenas para renascer com 30 anos, idade que possuía na época do sacrifício de Jesus.

E o mito ganhou ressonância mundial. No século 13, peregrinos encontram-no na Armênia; no século 16, o bispo de Schleswig reparte com ele um repasto em Hamburgo; no século 17, Cartaphilus acolita os imigrantes judeus ao Recife, em solo brasileiro; no século 18, Castro Alves devota-lhe o poema Ashasverus e a lâmpada, e Eugene Sue converte-o em personagem de folhetim, ilustrado por Gustave Doré. No século passado, no Brasil, o Judeu Errante é avistado, em prantos, na porta de um templo mineiro na Sexta-feira Santa.

No início da década de 1970, um cardelista do Recife denuncia Cartaphilus como um anatemizado, perseguidor de Jesus Cristo. E escreve: “Dizem que ele tem passado; por mato, praça e ermida; vila, beco, esquina e rua; cabaré, baile, avenida; e quem se encontra com ele; tenha cuidado na vida”. Hoje, Cartaphilus é confundido com o conde de Saint-Germain, que amealhou prestígio entre a nobreza da Europa dao século 18 e perambula por aí desde então. Em fins da década de 1970 - parbleu! - ele teria apresentado um programa de música na TV francesa. Não ria, please! Até imortais precisam comer...


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados