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A guerra dos insensíveis

01 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cássio Furtado, Professor e jornalista

Mohamed Bouazizi caminhou até uma loja e comprou duas garrafas de diluente. Quando o vendedor de rua chegou em frente ao prédio do governo de Túnis, na Tunísia, há sete anos, ateou fogo ao próprio corpo. Cometeu imolação. E iniciou a Primavera Árabe.

Desde então, ruíram os governos da Tunísia, do Egito, do Iêmen e da Líbia. O Oriente Médio viu ditadores que governavam há 30 anos, como o egípcio Hosni Mubarak, e Muammar Gaddafi, que comandava a Líbia há mais de quatro décadas, perderem o poder em questão de semanas.

Inspirados pelo ato de coragem do vendedor tunisiano, milhões de árabes tomaram as ruas das principais capitais demandando eleições imediatas. Cansados do desemprego e da hiperinflação, empoderados pela internet e pelas redes sociais, promoveram a maior abertura política em décadas em uma região tragicamente acostumada ao autoritarismo.

O governo do ditador Bashar Al-Assad, na Síria, começou a sofrer fortíssimas contestações. Em 2011, ele já governava a Síria há 11 anos. Seu pai, Hafez Al-Assad, liderou o país entre 1971 e 2000. Quando os ares da Primavera Árabe chegaram ao país, em março de 2011, o mundo esperava que Assad, assim como os demais ditadores árabes, perdesse rapidamente o poder.

Mas Assad resistiu. Nos últimos sete anos, ele e suas tropas têm feito de tudo para não perderem o poder. Auxiliado pelos russos, seus tradicionais aliados e fornecedores de armas, o governo sírio já jogou gás no seu próprio povo ao menos duas vezes, em 2013 e 2017. Como Assad é alauíta, integrante do grupo minoritário xiita que também governa o Irã e é maioria no Iraque, o ditador recebe apoio do governo iraniano e do Hezbollah, o grupo terrorista xiita que domina o sul do Líbano e busca, há décadas, destruir Israel.

Do outro lado, grupos terroristas islâmicos sunitas, como o Estado Islâmico e o Al Qaeda, buscaram território, poder e influência na Síria. Os curdos, grupo étnico composto por mais de 30 milhões de pessoas, e minoritário na Síria, no Iraque e na Turquia, também quer derrubar o governo de Assad, cujo partido político os oprime há décadas.

As grandes potências têm fortes interesses no Oriente Médio, tradicional fonte de petróleo, gás natural e hoje um mercado financeiro dos mais importantes. Barack Obama, quando era o presidente dos EUA, foi repetidamente criticado por sua posição contraditória sobre o conflito sírio. Ao mesmo tempo em que buscava neutralizar o Estado Islâmico, adversário dos EUA e que ameaçava os interesses estadunidenses no vizinho Iraque, Obama desejava uma solução diplomática que envolvesse os russos. Negociou inúmeras tréguas, que, poucas vezes, duravam mais que alguns dias. Donald Trump, por sua vez, tem sido mais agressivo, promovendo ataques aéreos contra o governo e coordenando uma aliança contra o Estado Islâmico.

Em meio ao fogo cruzado de alauítas, sunitas, curdos e um sem-número de interesses estrangeiros, a grande vítima é a população síria. Até agora, mais de 400 mil sírios perderam suas vidas nesse enfrentamento insano. Além deles, praticamente metade da população do país - 11 milhões de pessoas - teve de abandonar suas casas, suas cidades e a vida que conhecia por medo dos frequentes ataques de algum dos lados.

O conflito ocorre em paralelo a uma onda cada vez mais crescente de extremismo mundo afora. As populações europeias, em particular, têm votado em governantes com plataformas isolacionistas e refratárias aos migrantes. Os partidos de extrema direita, que culpam os refugiados pelos problemas sociais e econômicos europeus, têm ganhado cada vez mais adeptos.

O que mais incomoda é que os próprios líderes, países e instituições internacionais que poderiam preservar as vidas de milhões de sírios, muitas vezes decidem ignorá-las. A frieza tem caracterizado o pensamento e as ações dos governos e das populações dos países desenvolvidos, insensíveis em relação aos conflitos que os seus próprios interesses provocaram. Por tudo isso, sete anos depois, não há perspectiva de um fim para a Guerra Civil Síria.

E, em meio a essa era de intolerância, os corpos das vítimas sírias se amontoam. Bairros e cidades inteiras são obliterados. Um país, outrora próspero e cheio de vida, mais se parece com uma Hiroshima pós-Segunda Guerra Mundial. E a guerra dos insensíveis segue sem um fim.


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