Comentário

Aprendendo com a tragédia

31 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por:Neiff Satte Alam Osório, Professor universitário aposentado da UFPel e especialista em Informática na Educação

O interior do planeta faz seus ajustes e imensas placas tectônicas se movimentam e colidem com impressionante liberação de energia. Esta energia se propaga em níveis planetários e alcança os limites externos da crosta terrestre, delgada camada que dá sustentação à vida no planeta Terra, causando grande destruição na paisagem e nos habitantes desta paisagem. O homem e suas construções desmoronam como se fossem, e são, frágeis depósitos de energia vital substituível. Uma imprevisível previsibilidade!

Isto me faz lembrar o Haiti, um minúsculo país insular, alvo em um outro momento de ajuste tectônico, mas o povo haitiano vem sendo alvo de terremotos políticos, sociais e econômicos há muitas décadas. O coração deste povo, somente lembrado em crises desta natureza, sangra desde sempre pelo descaso que a parte mais rica do planeta trata o terceiro mundo.

As missões da ONU, da OEA e de ONGs comprometidas com a busca de soluções, terminam por serem verdadeiros bombeiros a apagarem as labaredas de miséria absoluta, de caos social e econômico que viviam e vivem os haitianos muito antes do abalo sísmico.

Desde o advento da internet que o mundo não tem mais fronteiras. Estamos definitivamente ligados uns aos outros, não importando as distâncias geográficas, o idioma ou a religião a que pertençam os que devem (ou deveriam) usufruir deste conhecimento universal.

A ciência deverá mostrar seu rosto, pois o que observamos é um avanço científico descomprometido com as mínimas necessidades dos que mais necessitam destes avanços, é o que chamamos “ciência sem rosto”, dominada por interesses absolutamente financeiros.

A tecnologia existente poderia transformar o planeta Terra em um grande jardim. Neste jardim caberiam os desabrigados dos terremotos do Haiti, do desastre de Mariana, das cheias do Ibicuí, dos deslizamentos de terra em Angra e Santa Catarina, das secas do Nordeste brasileiro, dos tsunamis do pacífico e dos vulcões do Chile. Não podemos conter as forças naturais de ajustes e reajustes do planeta, mas podemos minimizar o sofrimento dos habitantes, pois um terremoto ou um tsunami não escolhe suas vítimas, mas o homem tem escolhido as que serão melhor tratadas e a elas dedicado sua ciência e recursos econômicos obtidos pelo trabalho de todos, mas que nem todos têm usufruído destas vantagens.

O terremoto no Haiti não abriu apenas as gargantas apocalípticas de um magma furioso e de placas tectônicas desequilibrando-se, mas liberou um grito de socorro de milhões de haitianos sofridos, abandonados, que já sofriam de fome e sede muito antes.

A espécie humana é uma só, o DNA original é o mesmo, as dores e os sofrimentos são sentidos da mesma maneira, não importa o idioma em que se expressem. Os corpos destroçados por bombas ou terremotos merecem nosso apoio incondicional, embora as forças da natureza sejam incontroláveis e a tecnologia das bombas seja controlável e até dispensável.

Os mesmos que matam em um ponto do planeta são os que cinicamente tentam salvar vidas em um outro ponto.

O esforço mundial demonstrado neste momento em salvar vidas, amenizar perdas e reconstruir uma nação despedaçada tem que ter continuidade e ser estendido a outros países, deste e de outros continentes. Os soldados deverão se transformar em mensageiros da paz, com armas diferentes, que não matem, mas preservem a vida, pois temos que cuidar do grande jardim planetário com toda sua equilibrada e harmônica diversidade sócio-política-econômica-cultural e uma antes mais equilibrada biodiversidade. Este mundo é possível e esta possibilidade indispensável. O outro caminho nos levará para baixo dos escombros da insanidade de não compreender o funcionamento das engrenagens que movem o planeta Terra.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados