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Uma República que tornou a ser reino

30 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr Pérez da Silveira, pedromo0987@gmail.com

Em um reino geograficamente impreciso, vivia um povo pacato que conduzia seus dias em meio a pequenas alegrias, alguns festejos eventuais e apreço formidável por jogos praticados com uma circunferência de couro contra a qual batiam os pés. Conduzido antigamente por monarcas que viviam a distância, obedecia esse povo a ordenações elaboradas nessas cortes. O povo do que inicialmente foi colônia do reino, constituiu-se de enviados dos reis, que singraram mares perigosos e de pouco conhecimento, norteando-se por documentos cartográficos falhos e precários instrumentos de navegação. Aos poucos, vieram também aventureiros gananciosos atrás das riquezas dessas terras novas. Eles não foram os primeiros a ver as orlas encrespadas por morros de mata densa e nem as planícies verdejantes e sem fim, isso é força de expressão, pois no lugar recém-descoberto pelos homens de lá já viviam outros homens, os de cá, caçando bichos com armas artesanais, cultivando o solo com rara aplicação, utilizando indumentárias coloridas e sendo aparentemente obscenos aos olhos morais que os observavam, com as mulheres expondo seus seios, às vezes nuas, e os homens também sem muito esconder suas genitálias e traseiros. Quase ao mesmo tempo em que chegaram no reino, com os homens vindos de além-mar vieram também os eclesiásticos da cruz, e cravaram uma delas no chão dessas terras, na presença espantada dos nativos adornados com penas de pássaros e rostos assustados. Tentaram trazê-los para a Palavra, a que dizem vir da cruz, onde um perversor foi pendurado até lhe irem embora as forças, mas não foi possível uma catequização a contento.

Então os colonizadores enfiaram na cabeça que seria preciso trazer outra gente, mais domesticável, e sequestraram para sempre milhões de negros e negras africanos, que se tornaram propriedade dos descendentes dos que há quase cem anos haviam chegado em seus grandes barcos, e também dos aventureiros. Os descumpridores de ordens não eram tratados com mínima humanidade ou leniência, e os fraquejamentos dos cativos fizeram aparecer os açoites com látegos sem perdão, os troncos de pau em que eram amarrados, o isolamento em peças imundas por dias em que não havia água para a sede e nem alimento para a fome, os esmagamentos dos polegares pelos “anjinhos” (aparelhos de compressão), as máscaras de ferro para evitar que os submissos desesperados cometessem suicídio engolindo terra ou algum veneno, o sobe e desce das palmatórias desalmadas, os pesados colares de pescoço para machucar e impedir o sono, o vira-mundo, onde a gente de carapinha tinha o pulso esquerdo preso à perna direita e o direito à esquerda.

Essa iniquidade durou mais de três séculos. A bisneta de um rei que bateu em retirada por temor a Napoleão deu término formal ao holocausto continuado somente ao final do século 19.

Mas aí já se tinham formado as grandes elites rurais e a intelectualidade da nova nação. Quando o reino virou república, os burgos já se haviam desenvolvido, as castas se tornaram urbanas e o capitalismo estava implantado. A burguesia endinheirada estabeleceu um tipo estrutural de exercício do poder político, absolutamente voltada à defesa de seus interesses e mediante uma percepção vertical da vida social.

Doravante, essa classe não poupará esforços de convencimento acerca de uma desigualdade natural entre os homens, apesar das advertências do genebrino Rousseau.

Nos últimos tempos dessa república (assemelhadíssima ao antigo reino), houve quem procurasse, timidamente e mediante concessões profundamente indevidas, enfrentar as velhas características da verticalidade justificada. Uns 15 anos depois desses esforços, as forças políticas economicamente dominantes, retomando seu patriarcalismo, seus preconceitos, seu patrimonialismo e sua sede acumuladora, se organizam em meio a ideias de reprovação dos erros, e encontram então meios de desfazer, por meio da lei e de interpretações favoráveis a esse propósito, o que se estava levando adiante. Apeiam o último governante e tratam de liquidar moralmente o penúltimo, anunciando a instituição de uma ética salvadora.

Mas encarnaram os colonizadores: se discordarmos, talvez nos tratem como trataram no passado os de pele negra, à maneira do escravagismo contemporâneo. Alguns se convencem das razões apresentadas, e trabalham em seu favor. Há gente para tudo, especialmente quando se fala em futuro. O difícil é o olhar retroativo e, portanto, capaz de refletir e sopesar épocas, mas onde as almas secas não conseguem chegar.

E a república está uma fotografia do reino.


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