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Amor e outras drogas

25 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Larissa Leão, escritora

“A gente se sente gente porque nasceu para amar e ser amado e sorrir com os olhos e sorrir com a boca e querer com o corpo inteiro mais e mais doses...”

Há um mês, mais ou menos, fui visitar uma amiga no hospital. No quarto em que estava, encontravam-se mais duas mulheres. No canto direito, próxima à janela, ficava uma senhora acompanhada do marido, ambos grisalhos de estatura e peso médios; ela pálida, ele cor de índio. Não sei exatamente por que ela estava ali, o que sei é que a comunicação dela com o mundo era limitada (não mexia os braços, nem as pernas, além de falar muito pouco) - com o homem amado, não vivia limite algum.

Nos pés da cama, ele, fitando-a nos olhos, falava baixinho: “Eu vou te tirar daqui, eu vou te colocar no nosso Fusca velho, eu vou te levar para Santa Catarina. Nós vamos numa praia de nudismo. A gente vai namorar na área”. Ela ria. Ria-se de vergonha. Ria-se com os dentes. Ria-se com os olhos. Desejava. A boca bem aberta. A íris cintilante. E mesmo que eu usasse as palavras mais sensuais do mundo, mexesse meus braços e pernas, jamais conseguiria comunicar ao mundo a beleza da conexão que aqueles dois, há 40 anos juntos, me mostravam.

Vi tanta vida que, cada vez que lembro, sou capaz de sentir o cheiro do momento. Não sei por que o cheiro, mas juro que sinto. Foi a declaração de amor mais bonita da minha vida, quiçá da vida dela também.

O casal vivia seu “Segundo de Eternidade”, termo queridinho dos especialistas em mente humana: é quando o tempo cronológico parece ficar suspenso e a vida adquire plena relevância. Eu não diria que somente o amor é capaz de nos despertar um segundo de eternidade - quem salta de bungee jumping ou usa algum tipo de entorpecente pode me garantir que vê o tempo ficar suspenso.

Mas, ultimamente, tenho acompanhado uma amiga de 52 anos que, após 14 anos sozinha, permitiu-se amar de novo. Anda mais eufórica do que muito jovem que se escora em alucinógenos e mais corajosa do que qualquer um que já saltou de um lugar bem alto. “A gente se sente gente de verdade”, me explicou. E é tão sincero que dá vontade de usar a mesma droga e saltar com ela.

A gente se sente gente. Vê o tempo ficar suspenso, se sente eterno - ainda que o amor (por um motivo ou outro) tenha fim. E, então, a gente ama de novo: faz promessa, diz que vai namorar na areia e namora, antes mesmo de chegar na praia.

A gente se sente gente porque nasceu pra amar e ser amado e sorrir com os olhos e sorrir com a boca e querer com o corpo inteiro mais e mais doses dessa droga.

Eu, inclusive, aconselho uma overdose. Dá mais barato do que se jogar de bungee jumping.


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