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A marca da década perdida voltou

24 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Jarbas Tomaschewski
Coordenador de Jornalismo do Diário Popular

Nada é mais forte do que a fome. Acredite. Pelo estômago vazio o homem se entrega e aceita de cabeça baixa qualquer oferta. Troca seu voto na urna por um prato, furta, humilha-se e cede a quem tenta tirar vantagem frente a um pedido de socorro. Um apelo por comida, apenas comida.

De todos os temas já abordados pela Campanha da Fraternidade, proposta anual da Igreja Católica, o de 1985 nunca esqueci. “Pão para quem tem fome” foi a frase que atravessou o Brasil e alertou àquele momento do país. A ideia era estimular os brasileiros a assumirem a responsabilidade diante do cenário de miséria nos anos 1980, a chamada “década perdida”.

Foi um período de mudanças extremas. Se em 1970 quase metade da população ainda vivia no campo, dez anos depois começava a se consolidar a urbanização, com crises econômica e social que a geração mais nova não conheceu. As pessoas batiam nas portas pedindo não dinheiro, mas comida. Os números da época relatavam a existência de 52,6 milhões (ONU) de indivíduos miseráveis.

Pois os anos 1980 podem voltar. Os sinais já estão aí, diariamente, na nossa frente. É cada vez maior a presença de pessoas à espera de um punhado de arroz e feijão, nas calçadas dos restaurantes ou em locais onde encontram a solidariedade comunitária.

Essa percepção agora ganhou contornos oficiais, pela voz do brasileiro José Graziano, diretor-geral da FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. “Se o Brasil não conseguir retomar o crescimento econômico (...), nós podemos, infelizmente, voltar a fazer parte do Mapa da Fome”, declarou.

O economista Chico Menezes, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e da ActionAid, também projetou o pior: “Embora não existam pesquisas oficiais atualizadas mostrando que a fome voltou ao Brasil, os indícios são contundentes”.

Eu não preciso de números para enxergar. Voltamos a ter famílias inteiras sem condição de se alimentar, na luta por uma refeição diária, num país fictício. A nação irreal celebra a inflação baixa, enquanto a verdadeira resgata os anos 1980 em panelas vazias. “Pão para quem tem fome” deveria ecoar novamente.


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