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Carta para Paul McCartney

24 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Allgayer Osório, colaborador

Paul, essa vem de um teu “fã de carteirinha”. Nascidos que somos na mesma década de 1940, tive o privilégio de namorar e dançar na juventude ao som das músicas geniais que compunhas e cantavas com os Beatles.

Teu temperamento irrequieto te levou a outros interesses, nada artísticos, como a causa do vegetarianismo. Nessa direção tua iniciativa mais recente vem sendo defender o “meat free Monday” (segunda-feira sem carne).

O problema gerado é que a alta credibilidade que conquistaste junto ao grande público está estimulando ações atrapalhadas mundo afora.

Veja o que está acontecendo aqui no Brasil: a Assembleia do estado de São Paulo, inspirada na tua proposta, aprovou um projeto de lei proibindo consumir carne nas segundas-feiras, inclusive na merenda escolar. Ora, privar crianças de comer carne pode levá-las a déficits nutricionais importantes, já que diversos componentes essenciais ao metabolismo humano somente são encontrados em alimentos de origem animal.

As proteínas, por exemplo: nenhuma de origem vegetal possui um balanço de aminoácidos tão completo quanto as dos tecidos animais. E as vitaminas, essenciais à vida, em sua maioria não são produzidas no corpo humano (as do complexo B, essenciais à produção de glóbulos vermelhos, somente estão disponíveis em produtos de origem animal, podendo uma alimentação deficiente na B12 levar a um quadro de anemia).

Reportando ao processo evolutivo humano, estudos comprovam que durante o longo percurso que levou nossos ancestrais primitivos ao Homo sapiens, o aumento do volume do cérebro aconteceu concomitantemente com mudanças havidas no hábito alimentar de nossos ancestrais.

Sabendo que o tecido cerebral requer um aporte de energia muito superior à demandada por outros tecidos (16 vezes mais energia do que a mesma quantidade de tecido muscular em repouso), compreende-se a preferência instalada, desde o “tempo das cavernas”, pelo consumo da carne (a carne possui o dobro da energia contida em igual quantidade de frutas e dez vezes mais calorias do que os vegetais fibrosos).

Em épocas primevas, a predileção pela carne dos grandes animais permitia aos pré-humanos suprir suas necessidades nutricionais com uma única refeição, liberando tempo para o aperfeiçoamento das técnicas de manejo de instrumentos e para o planejamento de novos procedimentos, favorecendo a evolução cultural (animais irracionais gastam quase a totalidade do tempo em busca de alimentos).

Nossos primos chimpanzés, com um volume cerebral em torno de 400 cm³ (o cérebro humano tem ao redor de 1.500 cm³), satisfazem suas necessidades alimentares consumindo produtos de origem animal em porcentagem inferior a 5% do total ingerido, levantando a seguinte questão: tivesse a atual teoria vegana (não comer produtos de origem animal) sido adotada desde os primórdios da evolução humana, seríamos hoje tão “inteligentes” quanto... os chimpanzés?

Paul, larga disso. Esse discurso vegano apenas atende ao interesse de poderosas organizações internacionais concorrentes do Brasil, um campeão mundial da produção de proteína animal. Delega esse tema aos especialistas em nutrição humana, que gastam suas vidas estudando o assunto e nenhum deles recomenda abandonar o consumo da carne. Gasta o tempo que te resta produzindo mais daquilo que te faz genial: encantar a alma humana com tua música e enternecer o coração dos amantes com melodias que somente a tua genialidade é capaz de compor.

Em tempo: passando por Pelotas, te convido para discutirmos esse tema saboreando um “churrasco de fogo de chão”, meu argumento final para encerrarmos essa polêmica.

 


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