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Pacto pela Paz: compromisso de todos

23 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sadi Sapper, jornalista, professor aposentado de Direitos Humanos

Se há pelo menos dois predicados que não faltam à Prefeita de Pelotas eles são a coragem e a determinação. Explico: depois de se eleger com folga no primeiro turno e tendo um rol importante de obras para entregar nos próximos anos (em infraestrutura, saúde e educação, entre outras), Paula poderia surfar na própria popularidade e aprovação - que se mantiveram altas também ao final de seu primeiro ano de governo - e não se comprometer com temas difíceis e polêmicos que formalmente não pertencem às obrigações do Município. Mas não: por conta do mais genuíno interesse público e mesmo sabendo que segurança pública é tema que constitucionalmente pertence às órbitas estadual e, eventualmente, federal, avocou para o ente municipal parte da responsabilidade de combater e violência e construir mecanismos de prevenção. Prometeu criar uma Secretaria de Segurança Pública e estruturá-la e cumpriu a promessa. Mais do que isso: conseguiu motivar e mobilizar todas as principais forças vivas da comunidade - não apenas as que trabalham na atividade de policiamento - para a construção do Pacto Pelotas Pela Paz. É bom que se tenha presente que o Pacto, em sua processualidade, é algo que não tem donos, pois só poderá ser de todos se não for de ninguém em especial, ou seja, terá de ter lideranças que o conduzam no diálogo com a sociedade, mas não é da Prefeitura ou da Prefeita nem dos órgãos de segurança ou da justiça ou da mídia ou da consultoria, enfim, terá sempre de ser um compromisso coletivo, sob pena de que, não sendo assim, sequer consiga ser um pacto. Bônus e ônus, avanços e recuos, responsabilidades e compromissos terão de ser, sempre, de cada um de nós, numa partilha honesta, permanente e cidadã.

Faço esta observação inicial porque neste mês de janeiro, em Pelotas, o número de homicídios está acima da média, consequência de aspectos como briga de gangues e facções, demarcação de territórios e outros aspectos que fogem até mesmo ao controle da inteligência policial. Todos sabem que não é um fenômeno exclusivamente local. A violência assusta a todos e, lamentavelmente, muitas vezes penaliza os mais pobres e os jovens. Isso leva a juízos apressados e passionais, um dos quais é a busca de "culpados" para a onda de crimes, associando a violência, de maneira absurda, a essa ou aquela autoridade, cobrando o que ainda não pode ser resgatado. Nas redes sociais, nas conversas da esquina e até na mídia não é incomum se ouvir uma espécie de mambembe tribunal condenando o Governador, a Prefeita, o Secretário... É essencial ter presente que, mesmo que coletivamente se conseguisse personalizar a responsabilidade pela violência, isso não faria com que ela desaparecesse num passe de mágica. Cada vida que se perde na vã e banal onda de violência urbana, é uma espécie de confissão coletiva de toda a sociedade dos homens, assumindo que não foi capaz de evitar isso.

Há alguns meses, em artigo publicado aqui mesmo no Diário Popular, uma ex-deputada fez reparos ao Pacto Pelotas pela Paz, com argumentos que remetiam a evidente interesse eleitoral. Instada por assessores e amigos para responder à ex-parlamentar, a prefeita Paula optou por não fazê-lo e seu argumento foi o de que o Pacto jamais poderia se prestar a finalidades políticas, sob pena de desvirtuar-se e enfraquecer. Manter isso será essencial, em todos os sentidos, embora discursos interesseiros e apocalípticos insistam em fazer terra arrasada e negar o que está sendo buscado. Digo isso porque, como tantos, percebo às vezes um suspeito interesse necrófilo pelos óbitos e um vulturino olhar que não consegue disfarçar o desejo de que, quanto pior, melhor. Para avançar, teremos de ter paciência, até para com esses arautos do flagelo. Não nos fará mal, com humildade, saber que às vezes teremos de recuar um passo, para, depois, poder avançar dois ou três degraus. Como espartanos, teremos de aprender a lamber as feridas, a nos nutrir com pouco e a festejar pequenos avanços, mas sem triunfalismos que podem ser desmentidos no próximo final de semana. A Paz que devemos buscar não dá saltos mágicos e, para ser sólida e estável, precisa de tempo, bom senso, trabalho, paciência e boa vontade. Ah, e se ainda tivermos, como a Prefeita, coragem e determinação, tanto melhor. Na dúvida, não custa pensar assim: é sempre melhor, na treva, acender ao menos uma vela do que apenas ficar lamentando a escuridão.


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