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Impressões sobre a distância

19 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger
Professor, doutor do Centro de Artes da UFPel; cantor, ator e diretor teatral

Estou nem tão longe de Pelotas se considerarmos a distância em medidas cósmicas: em São Francisco do Sul, litoral norte de Santa Catarina, quase no Paraná. Já tinha muito ouvido falar das belezas das praias e da natureza deste lugar, da Mata Atlântica que ainda reveste boa parte da paisagem. Aqui na Prainha e na Enseada, estamos muito bem. Águas cristalinas e tranquilidade. Sem muvuca, nenhum som de porta-malas, areias limpas, vendedores de sorvete, cerveja, água de coco e óculos. Felizmente, simpáticos e discretos.

Não há edifícios à beira-mar. Ponto para os moradores daqui. Mas não identifiquei a coleta seletiva do lixo. Obrigações para 2018.

Antes, entre o Natal e o Ano-novo, estivemos em Punta del Diablo, no Uruguai, perto da fronteira com o Brasil. Lá, muito mais do que aqui, sentimos um beijo de civilização. As praias nem lixeiras têm, porque os uruguaios recolhem o lixo que produzem e levam para a casa; as casas, a propósito, não têm grades nem alarmes, não há vendedores, do que quer que seja, percorrendo as areias das praias. Nem qualquer tipo de som. A música é a natureza que oferece. Nosso querido vizinho tem o melhor IDH da América Latina e parece estar cem anos a nossa frente em termos civilizatórios. Algum brasileiro deixando latinhas pelas praias do litoral gaúcho poderá contestar, “mas no futebol, bah!, damos de goleada”.

São Francisco do Sul e Punta del Diablo comungam uma natureza exuberante e gente que tem cuidados em sua preservação. Mas ainda há distâncias cósmicas entre Brasil e Uruguai. Estamos atolados em nossa mediocridade e em nosso orgulho poltrão. Uma nação gigante e com dificuldades de se movimentar. Temos os olhos voltados para trás, coniventes com a roubalheira histórica de empresários e políticos de pele branca, crente em um salvador da pátria, torcendo caladamente pelo genocídio de pretos pobres, cobrimos a vista à violência contra mulheres e LGBTs, cruzamos os sinais vermelhos. Somos uns boçais.

Talvez, por isso, um imbecil como o Bolsonaro conquiste tantos seguidores. O desprezo humano, a tirania e a estultice ainda dão votos em um país de alma miserável. Nossa querida Pelotas, como algumas outras cidades do Brasil, transita entre a selvageria e a civilização. Se por um lado nos deparamos com uma tremenda desigualdade social, mas, sobretudo, com uma espécie de epidemia do vírus da ignorância e do egoísmo que elege a perturbação social e o desrespeito aos outros como bandeira do direito privado, a cidade, através do Sesc, vive mais um grande festival de música. Imagino que os pelotenses estejam lotando as apresentações das diferentes formações musicais; que as oficinas e cursos estejam cheios da gurizada ávida por aprender mais e mais.

O Sesc é uma das poucas instituições que têm com as artes um compromisso que faz a diferença e nos avizinha aos uruguaios, ao menos, durante estes eventos. É uma esperança civilizatória concreta. Em um estado em que o governo fecha a TVE e a rádio FM Cultura, únicos veículos que historicamente sempre apoiaram e disseminaram as artes feitas neste rincão gaúcho, a apatia e a conivência do povo do Rio Grande do Sul são assustadores. Aqui, meio de longe ou meio de perto, tento refletir sobre os rumos que escolhemos. São Francisco do Sul me passa uma alegria, mas uma alegria passageira de turista. O festival do Sesc encerra nos próximos dias. Logo, uma tristeza me invade.


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