Artigo

Ao amigo que perdeu o seu amor

06 de Março de 2017 - 07h19 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Luís Rosa Sousa, de Piratini, do Hospital Espírita

Agora que teu amor se foi te brotarão mil memórias, mas, na sequência, seguirás a eterna busca. Me fazes recordar a velha amiga que, ao morrer seu preferido, toda noite sonhava com ele em situações de vida e paz, tocando-lhe, assim, viver um apaziguado luto, um não luto em cada sonho, encontros a cada adormecer.

Me trazes, também, um verso do Thoreau e sua decisão de muito viver todo santo dia. De memória, digo: fui à floresta viver deliberadamente, sugar tudo que é vida, recusar tudo que não é vida, para que não, ao morrer, descobrir que não vivi. Te sinto como esse velho poeta com seu destemor, na imensa procura que a vida é.
O pai do Borges reconhecia, são os filhos que educam os pais, coisa que sei que sabes e sabes aproveitá-lo. Com eles aprendeste que podemos dar até o que não temos e sempre recomeçaremos, uma e outra e mil vezes. Com o destino a gente cumpre, com a impermanência, convive.

Teu momento me leva a pensar na tão pouco frequentada arte de amar-se. Obedecemos, vida afora, a norma de amar ao próximo, o que está de todo bem, mas, não sei em Jaguarão, aqui em Piratini, te garanto, essa coisa de amar-se, jamais é lembrada e, muito menos, falada. É pena, pois desde antanho se afirma que os atos de amar e amar-se deverão conviver em equilíbrio. Não é o que vejo. Na balança, amar ao outro tem sempre mais peso. Nestes tempos experimentarás, com mais força, a grande questão do querer-se, do dedicar-se a si mesmo, do propriamente amar-se. Minha analista uruguaia me deu, certa vez, uma dica sobre isso: perguntou se eu me animaria a querer-me, como se eu fosse um outro. Gostei do dito da Fanny Skolnick, guardei-a no coração, para sempre.

Numa época em que eu andava aperreado, grudei-me como pude no lombilho do Mário Quintana e com ele percorri, por um interminável ano, os arroios do Alegrete, o que me fazia reviver as sangas de Piratini, cruzá-las de lado a lado, a música da água na pedra, o banho gelado, o cheiro do mato, o silêncio. Fui repechando.
Te envio um quintanar de amizade e, junto, algo de poesia marroquina: o valor da moradia está no morador, querido Schlee.


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