Colunista

Um fato íntimo

07 de Fevereiro de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Por Pedro Moacyr Pérez da Silveira
pedromo0987@gmail.com

Estou buscando um fato que mereça comentários. Corro atrás de um acontecimento que me apeteça analisar. Não precisa ser notícia, propriamente. Um fato, apenas um fato. Os jornais não carecem de tê-lo revelado, as televisões talvez o ignorem, os radialistas podem ter andado distraídos. É possível mesmo que ninguém o tenha percebido. O leitor deve estar notando, e acertadamente, meu já quase desespero. Colunista recente se horroriza diante de certos vazios. Talvez tenha sido essa sensação que me impeliu a pedir uma xícara de café com leite naquela tarde chuvosa à atendente do Aquários. Ela voltou com a xícara fumegando. Quis uma empada. A que veio não estava nova, pedi para trocar. A atendente, cansada e mecânica, disse-me que todas as outras deveriam estar assim, haviam sido feitas no dia anterior. Como os pães amanhecidos, também as empadas mudam de consistência e de sabor. Não tinha fome para outro alimento, eu queria uma empada.

Meu fastio resistiu a outros ímpetos e lhe disse que me contentaria apenas com o café. Enquanto engolia o líquido quente eu via a chuva despejar-se contra a vidraça, dançando, vinda de um céu escuro e ventoso.

Entreti-me um pouco com a recordação de antigas vontades. Uma delas veio a propósito da chuvarada: eu sempre imaginei andar completamente seco em meio a temporais. Sem guarda-chuvas, sem marquises para esgueirar-me, sem corridas para o carro, sem táxis, sem caronas comiseradas, sem proteção alguma: a chuva forte sobre mim e eu, calmo, caminhando devagar, sem uma gota d’água a me molhar. Sorri, pedi nova xícara para agradar-me mais com essa ideia. Durante meu segundo café pude ver os transeuntes apressadíssimos, açoitados pelo aguaceiro oblíquo. Batiam-se, escorregavam, as rajadas viravam sombrinhas, pessoas esperavam alguma estiagem, escondidas em portas. Um carroceiro passou sovando as ancas de seu animal com um riso falso de quem suporta com estúpida galhardia um instante de sofrimento.

A visão daquele homem me fez vê-lo como uma peça de carrossel, um cavalo de acrílico levando uma criança dominada pelo frenesi causado pela aventura de girar e girar. Os homens mais velhos, saindo do Café, enfiavam na cabeça seus chapéus e partiam pelos costados das paredes. Vendo aquilo tudo eu cada vez mais me fazia ausente, apetecido pelo desejo mirabolante de não me molhar embaixo de aguaceiros. Larga sarjeta se formava na calçada do Aquários, o dilúvio se instalara naquela esquina. Àquela altura já ninguém mais se atrevia a sair ou a se dirigir até onde nós, os refugiados do Café, nos encontrávamos. O deserto foi tomando a rua. O corte de luz veio com os trovões que se emendavam uns nos outros, fazendo a população enervar-se diante dos mandados partidos das nuvens pretas pousadas com fúria sobre o centro da cidade.

Lentamente, levantei-me do balcão da lancheria dos fundos do Café, cumprimentei dois ou três conhecidos e me posicionei diante dos janelões de vidro. Fiquei olhando a chuva. Dentro dos prédios, as pessoas formavam pequenas multidões exiladas. Em alguns, lampiões e velas emprestavam luminosidade, o negrume do dia era tanto que quase nada se enxergava. De repente, toda a água que ainda faltava cair parece ter vindo de uma só vez, e a intensidade do vendaval se tornou assustadora. Alguns proprietários começavam a retirar a água que estava entrando nos estabelecimentos. Um pequeno artefato, o rodo, tornou-se fundamental naquela hora, quem dispusesse de um conseguia banir com relativa eficiência os fluidos invasores. A ventania era imensa e jogava a chuva para todos os lados. As poucas árvores da rua dobravam feito varolas sem resistência e as 


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