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Preconceito e o direito à solidariedade

07 de Fevereiro de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Manoel Jesus
Educador - manoeljesus.blogspot.com

Recentemente, uma africana que chegou ao Brasil fez uma triste declaração: não tinha vivido tão intensamente o preconceito racial até que desembarcou no país. De diversas formas, em hotéis, restaurantes, locais públicos, sentiu que a cor da sua pele afetava - e muito - a forma como era tratada. E não era para melhor.

Conhecia sua manifestação porque muitos conterrâneos angolanos vieram tentar a vida deste lado do Atlântico. Mas, como sempre, somente quando sentiu na carne a discriminação deu-se conta do quanto era dolorosa.

Convivi com três padres angolanos - Quintino, Augusto e Martinho - e outro durante pouco tempo - José - quando tive a certeza de que precisava aprender com gente que saiu de uma guerra civil sem perder a espiritualidade e a alegria em ritos onde a fé é demonstrada por cores, gestualidade e vivências que apontam para a esperança e a confiança no direito de viver.

Numa conversa, um senhor disse: “O preconceito é inerente ao ser humano”. Não tive condições de concordar. Mas também não tive coragem de discordar. Lembrei de pessoa próxima que dizia: “Não sou preconceituoso. Preconceito é coisa de negro!”. Forma pouco gentil de brincar com algo sério e expressar o seu preconceito!

Desde que os amigos citados voltaram para Angola tenho um sonho: ir a algum dos países africanos de fala portuguesa. Num primeiro momento, pensei, ajudar a formar lideranças, especialmente, no que se refere à comunicação.

Hoje, penso diferente: quero ir para aprender. Conviver para entender o quanto ainda precisamos caminhar para derrubar as barreiras do preconceito. Desarmar espíritos não é somente aceitar seres com cores diferentes. As diferenças acontecem porque alguns se julgam melhores e no direito de impor o que pensam por guerras, economia, meios de comunicação ou religião.

Há aqueles que já estão entre nós há mais tempo e, sabemos, subsistem em condições difíceis. E aqueles que migram. Os que aculturamos precisam redescobrir sua identidade. Os que chegam, serem recebidos como membros da mesma raça - a humana - que nos faz iguais, independentemente de gênero, país de origem, cor ou religião.

O brilho nos olhos de quem valoriza a própria cor (e enquanto ser humano) ou de quem é acolhido faz pessoas melhores por saber que estão na trilha certa de realizar seus sonhos. De outro lado, o preconceito faz vítimas ao condenar à depravação mental e espiritual homens e mulheres que abrem mão do direito de serem solidários.


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