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O primeiro ano de Trump na presidência dos EUA: uma tragédia previsível

18 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cássio Furtado
Professor e jornalista

Daqui a dois dias Donald Trump completará seu primeiro ano como presidente dos EUA. Durante os últimos 363 dias, o magnata estadunidense dominou as manchetes mundiais, ora com suas falas grosseiras e imaturas, ora com suas ações unilaterais, antimigratórias e favoráveis aos grupos extremistas que por longos anos estiveram adormecidos mundo afora.

Tudo isso, entretanto, não é surpresa para quem conhece Trump. Na minha infância, já era famoso por pomposos empreendimentos imobiliários e ego inflado, por aparições em filmes, como Esqueceram de mim 2, e pelo gosto por brinquedos caros como helicópteros e carros de luxo. Anos depois, criou o programa O aprendiz, na televisão norte-americana.

Trump flertava com a política há anos, em 2015 anunciou sua intenção de concorrer no ano seguinte. Seu objetivo - similar ao de muitos possíveis candidatos no Brasil de 2018 - era demonstrar que a classe política estava tão corrompida e enlameada que somente alguém como ele, de fora da política, poderia salvar o país.
Na campanha de 2016, Trump concorreu contra 16 rivais na luta pela indicação do Partido Republicano.

Durante as prévias, e com o objetivo de derrotar candidatos que, como ele, eram conservadores, buscou se diferenciar dos direitistas mais moderados. Apelou para a extrema direita, composta por grupos neonazistas, neoconfederacionistas, e racistas de toda estirpe. Criticou os latinos, prometeu deportações em massa e a construção de um muro na fronteira com o México. Ninguém em sã consciência acreditava que essa estratégia de ódio desse certo.

Após meses de xingamentos, palavras de ordem e muito radicalismo, Trump subia ao palco de uma arena de basquete em Cleveland, Ohio, para aceitar a nomeação republicana para a Eleição Geral. A estratégia radical e odiosa de Trump será derrotada pela candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, diziam os especialistas.

Mas no dia 20/1/2017, ao meio-dia, para o choque de todos, Trump tomava posse como presidente dos EUA. Sete dias depois, ele decretou que cidadãos do Irã, do Iraque, da Síria, da Líbia, do Sudão, da Somália e do Iêmen - sete países de maioria muçulmana - não poderiam entrar nos EUA por 90 dias. Determinou não mais recebessem refugiados da Guerra Civil Síria.

O seu decreto acabou ruindo perante as cortes federais estadunidenses, mas a sua intenção já era clara: isolar os EUA do mundo, e evitar que migrantes de países mais pobres ou predominantemente islâmicos entrassem.

A lista de ações isolacionistas de Trump é longa, e talvez não caiba em uma só coluna: anunciar a saída dos Acordos de Paris, que objetivam reduzir o impacto do homem no clima, reconhecer Jerusalém como capital de Israel, ignorando o pleito palestino de que Jerusalém Oriental venha a ser a capital de uma futura Palestina, rejeitar o acordo nuclear costurado com o Irã, que garantia a fiscalização do país islâmico, e até mesmo ameaçar suspender os pagamentos para a ONU.

Escolher o momento mais desastroso da presidência de Trump é tarefa das mais difíceis. Mas, muito provavelmente, ele ocorreu em 12 de agosto passado. Horas antes, milhares de brancos nacionalistas, racistas, neoconfederacionistas, neonazistas e membros da Ku Klux Klan marcharam no campus da Universidade da Virgínia, em Charlottesville. Quando foram confrontados pela população em geral, o resultado foi enfrentamento e mortes.

Todos esperavam que Trump condenasse não somente a violência incitada e iniciada pelos grupos extremistas, como a passeata em si. Trump frustrou a todos, dizendo que a violência era culpa de todos os lados, inclusive da população que protestava - pacificamente - contra os grupos extremistas.

O magnata tornado presidente pode nem mesmo terminar o mandato. As acusações de que sua campanha recebeu ajuda da Rússia se amontoam. Desde maio, o ex-diretor do FBI, Robert Mueller, conduz uma investigação independente sobre as suspeitas. Caso as investigações determinem que Trump realmente recebeu ajuda russa, Mueller poderá até demandar o impeachment de Trump.

Nesse caso, a presidência dos EUA cairia nas mãos do vice Mike Pence, conservador de Indiana, um político moderado e discreto. Essa alternativa não seria a ideal para os mais de 65 milhões que votaram em Hillary nas últimas eleições. Mas, certamente, melhor que os últimos 363 dias da tragédia previsível que é o governo de Trump.


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