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Temos que falar sobre a violência

17 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Gustavo Jaccottet
Advogado

“Não duvido que Pelotas esteja no caminho do progresso, mas ainda é cedo para olhares otimistas, portanto, sugiro que permaneçamos realistas”

Pelotas é de fato uma cidade culturalmente abastada. Não aceito, todavia, que o pelotense assista de canto de olho o que acontece à periferia do município. O professor Nery Porto Fabres publicou um artigo para lá de vago no que diz respeito aos problemas enfrentados pelo município. Não mencionou dados concretos e apenas se limitou a descrever que percorre o caminho das ciências criminais e que a criminalidade não pode ser abordada de forma errônea. Num primeiro momento pensei que o professor estivesse falando de Pelotas como uma cidade sita à Suíça ou à Noruega, mas não, falava da mesma cidade que habito. Outro ponto que me saltou aos olhos foi a inexistência de dados consistentes, o que me força a mencionar alguns dos mais relevantes.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem uma média de 32,4 mortes para cada 100 mil habitantes, que se baseia em dados populacionais de 2010, tornando o Brasil o nono país mais violento de todas as Américas. Os EUA apresentam 5,4 mortes para cada 100 mil habitantes. Por lá todo cidadão possui o direito de se armar e até mesmo de criar milícias armadas em caso de ineficiência do poder público, que é previsto na 2a Emenda à Constituição de 1787.

Em 2017, Pelotas registrou 35 homicídios para cada cem mil habitantes. O número que mencionei está em acordo com o total de habitantes sito ao banco de dados da ONU, num total aproximado de 307 mil moradores. Tal base de cálculo gera preocupação. Coloca-se Pelotas em patamares numéricos de criminalidade acima do Haiti e do México, país este que sofre com as guerras campais entre os narcotraficantes.

Segundo a ONU, a morte de civis tem caído até mesmo no Iraque, cujos dados foram atualizados até 1º de agosto de 2017, contando a morte de 241 civis, ficando assim na margem próxima de 7 mortes para cada 100 mil habitantes, com um senão, o Iraque está em guerra. Pelotas, contudo, não está em guerra, pelo menos não nos locais citados pelo professor.

Lembro que, já em 2018, Pelotas computou nove homicídios nos primeiros 10 dias do ano, três deles em apenas um dia. Numa projeção rasa, o número de mortes se aproxima, apenas neste período, de 10% do que foi registrado em 2017 e quase 12% do que foi registrado ao todo de 2016, quando a baliza indicou um total de 76 homicídios.

Não duvido que Pelotas esteja no caminho do progresso, mas ainda é cedo para olhares otimistas, portanto, sugiro que permaneçamos realistas. Falar sobre a violência é imperioso. Advirto que em conversas de bar na Alemanha Nazista ninguém sabia (ou se fazia não saber) sobre o que acontecia nos campos de concentração situados ao Leste, especialmente na Polônia, local onde funcionava Auschwitz.

Talvez há assuntos mais importantes a serem tratados pelos frequentadores do Café Aquários, porém sugiro para os que lá se fizerem presentes no dia-a-dia tratem de dialogar acerca da violência como um problema institucionalizado, caso contrário, ela realmente desaparecerá, será um caso de ficção, perfazendo uma ilha, bem semelhante à narrada por Shakespeare em “A Tempestade”, cujos frequentadores não passam de réplicas do Caliban. A periferia, cujos habitantes não têm condições, e tampouco tempo, de esquecer que a cultura da violência é diária, resta, pelas palavras do professor, esquecida, reduzida a um local inatingível.

Poesia, música e doce não são suficientes para fazer com que a criminalidade desapareça, pelo contrário, ela é mistificada.


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