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O amor de dois jovens medievais

16 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Do objeto e suas ressonâncias

Há muitíssimos anos, um homem jovem vivia em terras muito distantes da nossa, e ele nasceu de um daqueles murmurares de várias bocas que vão contando a mesma história por um certo tempo até que incontáveis ouvidos a escutem. Uma narrativa que tem uma tal origem é própria para a formação das lendas, e ao final se vê que já nem aquele moço e nem os outros personagens estiveram um dia entre pessoas reais.

O sentido de rumorejos assim, a exemplo de outras fabulações, traz consigo significados que costumam contemplar lições morais e noções emblemáticas sobre sentimentos gerais.

Pois esse antigo homem, aparecido em narrativas literárias que caminharam ao longo de séculos, seria filho do rei Rivalen da Cornualha e sua mulher Brancaflor, e passou sua vida entre aventuras épicas e românticas.

Criado pelo marechal Rohald, foi confiado ao sábio Governal, que lhe ensinou a arte bélica e a sabedoria necessária aos enfrentamentos. Esses personagens, contudo, perdem um tanto a importância ao longo da lenda, que se concentra em Marcos, irmão de Rivalen. O tio, após proteções dadas ao jovem, mostra uma personalidade influenciável, muito embora seja capaz de, a par de sua crueldade, perdoar, deixando entrever um homem que transita entre o amor e o ódio com oscilações radicais. Marcos tinha imenso apreço por seu sobrinho, protegendo-o sempre que possível em suas aventuras, todas passadas entre a Cornualha, o País de Gales e a Irlanda.

Por conta dos favores do tio e do afeto que por ele igualmente nutria, o jovem o auxilia a enfrentar o tirano Morholt, que atormenta Marcos. Em uma de suas viagens, ele enfrenta um gigante irlandês, vencendo-o, mas acabando gravemente ferido. Pede então a Marcos um barco, remos e uma harpa, para morrer estoicamente em alto-mar; o mar, aliás, está sempre presente na lenda. Através de seus humores, que vão de calmarias a fúrias, se revelam ânimos propriamente humanos, e essa simbologia auxilia centralmente a melhor compreensão da história. O barco, singrando errante pelo oceano, acaba na costa da Irlanda, e lá ele conhece uma princesa também jovem e de cabelos loiros, que o salva e se torna sua amiga.

Após, entre outras viagens e percebendo a solidão do tio, entende que deve lhe conseguir uma esposa, tornando-o mais feliz com a nova companhia. Lembra-se da amiga que dele cuidara e decide trazê-la ao tio, para que ele a despose. Retorna à pátria da jovem e a convence de seus propósitos. A mãe da princesa, encantada porque a filha se casará com um rei, prepara uma poção para que os nubentes, ingerindo-a, tornem sua união indissolúvel e se amem com vigores definitivos, mas disso não dá fé aos viajantes. No percurso, com sede, desavisadamente ambos bebem a infusão, e veem um amor incontrolável lhes nascer. Antes de ela ser apresentada ao tio, eles se fazem juras, e se percebem destinados um outro pelas vontades insondáveis do céu, e se entregam, e fazem amor e, enfim, nunca mais se poderão afastar um do outro. A partir daí, a história tem inúmeros desdobramentos, mas para que nesse pequeno texto caiba, cumpre dizer que ela se consorcia com o rei Marcos e permanece sendo amante de seu sobrinho, que mantém sentimentos perturbados sobre seu relacionamento. Entre encontros secretos e truques de dissimulação, são apanhados e banidos do reino. A situação não dura muito tempo, ela retoma o casamento com Marcos e ele opta por afastar-se, retomando suas jornadas marítimas. Conhece uma mulher de igual nome e de mãos alvas, em tudo diversa da de cabelos loiros, e com ela se casa, mas não conhece a felicidade.

Sofrido e sofrendo, abandona a Bretanha e empreende retorno à Cornualha. Auxiliando Kaherdin, seu amigo e irmão de seu grande amor, é letalmente ferido em batalha contra o barão Bedalis. Insensato e febril, solicita que chamem a jovem para vê-lo em seu ocaso nessa vida, mas sua mulher, enciumada, diz-lhe que no mar avistara um navio de vela negra, e que a amada nele não vinha. Ele morre e ela, vendo-o falecido ao chegar, abraça-o, e também fenece.

Essa é lenda de Tristão e Isolda, que desde a Idade Média traduz, em estampa paradigmática, a potência do amor e de tudo o que, em seu nome, somos capazes talvez de realizar. Tão longe com ele vamos que, a exemplo do casal legendário, agregamos ao amor a ideia de eternidade, admitindo até mesmo morrer ao lado de quem, havendo desaparecido, era a pessoa a que dedicávamos adoração e fascínio, e sem a qual razão mais não há para continuarmos vivos.


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