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Eu: bioma

02 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa - Hospital Espírita - prosasousa@gmail.com

Era só o que me faltava. Esse pessoal agora vem com a ideia de que meu corpo não é apenas um corpo, mas um bioma, ou seja, "grande comunidade estável e desenvolvida, adaptada às condições ecológicas de uma certa região", nos dicionários. Na cabeça dos biólogos, há anos, o corpo humano não é nada especial e, sim, que vive o pobre coitado numa interação demasiado íntima com seres microscópicos, milhões de milhões deles, há milhares de mil de anos. Isto é, a bicharada se aquerenciou e passou a gostar de nós.

Assim, nos habitam alegremente variadas famílias de bactérias, fungos, vírus, protozoários, ácaros e seus sócios, desempenhando, acreditam os destemperados, funções nunca dantes suspeitadas: se fico gordo ou magro descubro que minha flora intestinal também está alterada, o mesmo ocorrendo se adoeço do intestino ou do coração. Mais, se me surgem transtornos de ansiedade, ou depressões, ou loucuras graves como psicoses, além de autismos e Alzheimer, é certo que minha horta privada estará em crise, mudando as regras de convívio entre si e para conosco. Falta bastante a investigar, mas não deixa de ser curioso pensar que essas floras são facilmente alteradas por antibióticos e correlatos e que ainda desconhecemos até que ponto essas alterações de nossos pululantes companheiros nos tocam. Psicanalistas e parceiros de labuta estamos em choque, já andam falando de psicobióticos, coisa impensável até ontem. Precisamos estar ligados.

É que os cientistas agora só querem trabalhar com modelos hipercomplexos, tipo eu corpo bioma: não apenas sou um montão de 10 trilhões de células sob as ordens de 23 mil genes, mas, garantem, sou bioma onde navegam 100 trilhões de bactérias, sob 3 milhões de genes não humanos. Cada vez mais atual o velho e irrespondível: quem sou eu?

Sigo troteando, até novas notícias, com a cínica do Millôr, de que somos um monte de carne com nove ou dez buracos, conforme sejamos homens ou mulheres ou, para momentos mais ternos, sob a voz do Drummond, percebo: "meu corpo não é meu corpo/meu corpo me sabe mais que me sei". Quem quer ciência quando se tem Drummond?


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