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Sonho acordado de uma noite de verão

02 de Janeiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Moacyr

Sempre que findam os anos, muitos são estimulados pela impressão de que, por ocorrência de um inexpugnável prodígio, coisas bem melhores passarão a ocorrer desde os primeiros dias dos janeiros. Não fujo à regra, também sou tomado por uma percepção de fim e começo, num continuum que se rompe em dois para, de um lado, acabar, e de outro, iniciar. O indesejável não haverá de permanecer, e o que me parece bem deverá continuar. Essa é uma ilusão psicologicamente necessária para o recrudescimento de esperanças que, se perdidas, muito tormento podem trazer. Aceitamos o embuste de um autoengano favorável como uma espécie de antídoto a amarguras continuadas e a sofrimentos que se vêm acumulando. A partição do tempo conduz-nos a uma convenção conveniente, e nos embruxamos o suficiente a cada ano a ponto de nos pormos às mãos uma impossível borracha, apagando o que mal está e deixando intacto o que nos apeteceu.

Como vivemos em meio a certas contingências da nossa geografia, construímos desejos expressivamente condicionados ao que nos influencia, ou ao que a nós diz respeito mais diretamente. Essa determinação espacial obedece a critérios e a escalas. Por exemplo, há situações que me são importantes e que se passam em minha casa, junto aos meus - aí, minhas intenções são restritas ao meu ambiente familiar; mas posso ser, também, um munícipe, e meus anelos se referirão ao que gostaria tomasse lugar na cidade em que vivo; posso, igualmente, ser uma pessoa com olhos em meu estado, e meus quereres dirão respeito ao Rio Grande do Sul; como brasileiro, minhas finalidades se referirão ao que se passará no território nacional; por fim, com olhos no planeta, serei um cidadão com interesses gerais no mundo, particularmente o humano. Mas posso fazer múltiplos cruzamentos dessas possibilidades e desses localismos com vários níveis dos propósitos que me estimulam. Poderei pensar na Terra pretendendo uma vantagem muito limitada, assim como poderei me esforçar junto à minha família por algo que eu apreciaria fosse de validade universal a todas as famílias.

De alguma maneira, é a partir desses entrelaçamentos que se estabelece grande parte das pretensões políticas, e o vetor que tanto mais legitima o que politicamente se faz, ou se pretende fazer, está condicionado a uma vinculação significativa desses atos e dessas intenções com o que se aceita como correto, ético e justificável mediante aferições coletivas complexas. Uma dessas formas de verificação - ainda a principal - é a democracia; outra é a transparência dos atos públicos, que pressupõe liberdade informativa e compromisso com a verdade mais possível; ainda outra, talvez, seja a formação de uma massa de pensamento agrupado que surge de análises plurais, donde se formam bons argumentos de convicção. Pouco ou nada será possível aos dois últimos aferimentos (transparência e formação de entendimentos ampliados) se não tivermos práticas democráticas, a despeito das imensas dificuldades para tanto nesses tempos pós-modernos, como aqui escrevi na semana passada.

Sobre a vida política para 2018, sonhei acordado em uma dessas noites de verão. Admitidas as gradações mencionadas na especificidade da intersecção do meu espaço/tempo, percebi-me como alguém que, desde Pelotas, se sentirá um tanto mais feliz em ver alguma recuperação do pensamento de esquerda no mundo, independentemente de partidos, os quais muitas vezes corrompem, por sua estruturação limitante, as compreensões genéricas que fazem parte das tipologias programáticas.

Também gostaria que, diante do que se está vendo dia após dia, o TRF da 4ª Região não condenasse Lula no próximo dia 24, data em que está marcado o seu julgamento de segundo grau, embora ache muito pouco provável que venha acontecer. Uma eleição sem a sua figura, se for retirado do pleito por decisão judicial convalidadora de uma sentença que tem em seu prolator um juiz suspeitíssimo de negociatas realizadas no âmbito das delações premiadas, poderá vir a mergulhar o país em uma enfermidade emocional cujas consequências são profundamente imprevisíveis nesse momento.

Por igual, apreciaria que admitíssemos a existência do que é intolerável, assim como soubéssemos que a tolerância não se confunde com o respeito a todas as liberdades, e tivéssemos judiciosos critérios diferenciadores.

Feliz Ano-novo a todos os leitores, com a esperança de que essa garrafa, que lanço agora ao mar em busca de companhia para sonhar, encontre alguém antes de outubro...


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