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Símbolo de uma época

30 de Dezembro de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima, escritor

A Belle Époque somente era bela para os bem-aventurados detentores do dinheiro. A situação dos pobres de Paris não era muito melhor do que a dos miseráveis de Victor Hugo. O nível de desigualdade social seria alarmante se não fosse considerado normal. Os grandes empresários, banqueiros e aristocratas que frequentavam o Maxim´s - símbolo da época! - faziam parte de uma minoria que habitava seu próprio mundo, obscenamente abastado. Mas o Maxim´s nem sempre fora assim.

Aberto em 1893 com as economias pessoais do ex-garçom Maxime Gaillard, o Maxim´s Bar abrira as portas como pé-sujo. Sua clientela era composta em sua maioria por cocheiros. Os taxistas regalavam-se com um cardápio caseiro de primeira, como todo o pé-sujo francês o fazia. E ainda o faz. Poucas semanas após a sua inauguração, porém, para espanto da clientela, o socialité Arnold de Coutades e a cortesã Irma de Montigny se aventuraram a entrar no estabelecimento. Almoçaram e ficaram tão satisfeitos que retornaram ao local, agora levando amigos, que, por seu turno, convidaram conhecidos, namoradas e amantes. De boca em boca, o Maxim´s ganhava espaço na seleta programação do tout Paris.

Nos derradeiros suspiros do século 19, o famoso restaurante situado na rue 3, Royale, já misturava, sem desandar, dois ingredientes pouco compatíveis: a nata da aristocracia decadente e a base da burguesia em ascensão. Os primeiros fariam do Maxim´s seu baile da Ilha Fiscal; os segundos, um palco de ostentação despudorada do dinheiro novo que dominaria o século 20. Tradição, heranças e títulos nobiliárquicos davam lugar à engenhosidade, investimento e especulação. Sentados à mesa, porém, o dinheiro novo e o velho pouco se diferençavam. Usavam as mesmas cartolas, fraques, diamantes e estolas de pele.

Reformado pelo novo proprietário Eugène Cornuché, durante a Exposição Universal, em 1.900, o Maxim´s triplica o faturamento com a afluência de uma nova clientela. Deixa de ser um clube exclusivo da alta sociedade francesa para abraçar a elite internacional, visitante da Expo. Sem perder seus clientes tradicionais, ganha fama na boca de magnatas americanos, barões brasileiros e nobres do leste europeu. Sem Twitter ou Facebook, ele se transforma no restaurante mais famoso do planeta. Mas o tempo passa e, com ele, o Maxim´s perde o charme e a clientela mundial.


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