Artigo

O itinerário da fofoca

05 de Dezembro de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Pedro Mocayr Pérez da Silveira, professor

Numa cidade da Campanha, muito tempo não faz, deu-se um acontecimento que, na falta de outra designação, chamaremos de...insólito, para dizer o mínimo! Foi um desses episódios em que murmurações e cochichos indiscretos são produzidos sem contenção por línguas imoderadas. Assim costumam circular as desonras, maledicências e umas intrigas sem reparação, feitas habitualmente à boca pequena, como estratégia de um necessário anonimato, obscurecendo o primeiro relato e evaporando passo a passo o nascedouro original da difamação. Esse é, como vemos, o itinerário da fofoca.

Pois talvez seja fofoca o que por aí caminhou entre bocas ávidas de ouvir e ouvidos famintos de contar; ou o contrário, já não se sabe. O que se conhece é meio vago - não há certeza sobre locais e protagonistas, mas nem por isso se discute a veracidade do acontecido. De qualquer forma, a força destrutiva do que foi divulgado causou um imenso dano psíquico à comunidade do município, revelado na forma de um mutismo coletivo e atitudes desesperadas. Dentre os que foram direta ou diagonalmente atingidos, há gente enclausurada em casa, uns que se entregaram vertiginosamente à bebida, e já se fala também de uma tigrada que teria disparado para a fronteira, com lenço para chorar e sem documento de identificação.
Pois nessa inexata cidade um impreciso casal decidiu-se por celebrar seus muitos anos de casamento. Festejavam bodas de carvalho, período que corresponde ao trigésimo-oitavo ano de núpcias convoladas. Julgaram ser melhor solenizar a data, que era assim como um emblema do amor duradouro, em um local onde pudessem realizar noite afora - e aqui tudo se presume, nada se conhece - certas revivescências românticas e quem sabe se entregarem a algumas restaurações lúbricas. Dirigiram-se, numa noite de final de semana, a um motel recém-inaugurado como quem vai a um hotel circunspecto, pois um estabelecimento ou outro não lhes fazia diferença. Como dissemos, os proveitos íntimos dessa noite são ignorados e em nada importam ao que se sucedeu depois.

Em adequação à cultura e aos comportamentos humanos próprios da região que vai de Aceguá a São Borja, numa espécie de canto abarbarado do sudoeste do Rio Grande do Sul, o casal tinha discernimentos e costumes condizentes com o moralismo conservador da gente mais antiga dessas terras, mas também traziam consigo a ingenuidade que está naqueles que resistem às novidades. Foi por isso que acabaram sem assombros no motel. Ele se vestiu com uma pilcha masculinamente faceira, enfiando-se em uma bombacha larga, chapéu com barbicacho, guaiaca nova com a carneadeira trespassada por detrás, botas de pouco uso, camisa branca e um lenço encarnado com o nó farroupilha, aureolando o pescoço ressequido pelo sol apanhado nas lidas do campo. Ela foi com roupas simples, o vestido tinha o discreto enfeite de estampas pálidas, nos pés calçou uma sandália elementar. O casal era muito relacionado na cidade, conheciam as famílias inteiras.

Todos os apreciavam, e muitos, por conta dessas convivências que somente são possíveis em localidades menores, já haviam frequentado a casa deles ou até mesmo ainda os visitavam.
Ao clarear de domingo, já de pé e chimarrão aprontado com a água esquentada pelos serviços de atendimento, o marido comunicou:
- Vou tomar uma fresca na frente do quarto e matear um pouco.

Ela disse que ia junto, pois lhe crescia a vontade do mate. Assim, cedinho se instalaram no único corredor de saída daquele estabelecimento de vários cômodos contíguos, onde o deles era o primeiro, ao lado da portaria. Sentaram nas duas espreguiçadeiras de lona que levaram ao quarto em que pernoitaram (como dissemos, nos são ignoradas as atividades que dedicaram às bodas de carvalho), e começaram a tragar mano a mano a bomba fincada na cuia. Enquanto ali ficaram, viram com curiosidade alguns carros saírem parcialmente das garagens dos quartos, retornando logo a seguir. Várias vezes isso aconteceu enquanto mateavam. Cismados, olhavam as manobras estranhas dos autos, que era como se referiam a veículos.
Passava das oito quando o porteiro lhes perguntou se podiam sair dali, porque os demais hóspedes queriam ir embora. Não entendendo direito o motivo, se posicionaram sob o batente da porta do aposento, aproveitando a aragem. Rapidamente, um a um, carros acelerados passaram naquele corredor com pedras de brita ao chão. Alguns receberam um aceno amigo ao cruzarem por eles, e puderam escutar o cumprimento campeiro:
- Buenas! Que tal?


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