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"Morre com honra quem não soube viver com ela"

12 de Agosto de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sérgio Cruz Lima

"Suicídio! ... in questi/ Fieri momenti/ Tu sol mi resti/ Tu sol mi tenti/ Ultima voce/ Del mio destin/ Ultima croce/ Del mio camin!" Ou: "Suicídio! Neste momento de desespero, só tu me restas. E tentas meu coração. Última voz do meu destino, última cruz do meu caminho!" Assim tem início o quarto ato de La Gioconda, ópera de Ponchielli.

O teatro grego, o palco hodierno e a literatura abusaram do suicídio como forma de solução dos dramas do homem. A ópera, por suas qualidades dramáticas, se caracteriza por usar esse expediente como solução em situações diversas. Há, pois, nos libretos operísticos todos os tipos de motivações para o suicídio: amor, amor paterno, fraterno ou materno, amor frustrado, ódio, ciúme, traição, vingança, honra, covardia, falência, pudor, vergonha etc. E um dos exemplos mais marcantes do "morrer pela honra" acontece em Ernani, de Verdi. O herói, após dores e peripécias, vencedor de situações políticas e pessoais adversas apresta-se para casar com a mulher amada. Súbito, ao longe, ouve-se o som de um trompa que o lembra da promessa de matar-se caso o rival assim o determine. Ernani não vacila. Apesar dos apelos da amada, tira a própria vida na festa de bodas! Em O diálogo das carmelitas, de Francis Poulenc, o suicídio também é tratado de forma heroica, mas o componente é meramente espiritual.

"Quem há vivido por amor, por amor morrerá", canta o vendedor de rua em Il tabarro, ópera de Puccini. A equação de eros com tanatos, ou o conceito do amor com uma culpa trágica a ser expiada pela morte, é tema perene no drama e na ópera. E isso é revelado com grandeza e elaborado com profundidade psicológica e metafísica em Tristão e Isolda, de Verdi. Na ópera pucciniana, a heroína é o eixo ao redor do qual se desnuda a ação. Ela é mostrada como uma mulher vitimada por um amor legítimo e sem limites. Para Puccini, isto constitui culpa pela qual a heroína deve ser punida por meio da dor física e mental e, gradualmente oprimida, até a morte. E Cio Cio San, a heroina de Madame Butterfly, uma história de vilões, é o maior exemplo disso. Com o punhal de seu pai, que também se suicidara, e onde se lê "morre com honra o que não soube viver com ela", Cio Cio San dá fim à vida e libera o filho para melhores oportunidades. O tabu do suicídio inexiste na ópera. Diversamente de outras artes, no canto lírico o suicídio é sempre bem-vindo como solução de problemas. Para a ópera, o suicídio é uma opção. E não faltam motivos para desistir de viver.

 


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