Opinião

Bebês chorões: bebês roseanos

17 de Julho de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa, Hospital Espírita, Society for Psychotherapy Research (prosasousa@gmail.com)

Choro excessivo em bebês saudáveis, umas duas horas por dia, antes dos três meses de vida, vem ocupando os estudiosos, mas não sabem eles a causa, nem qual a melhor conduta. O diagnóstico exige que o bebê esteja normal ao exame, o crescimento adequado à idade e a mãe-família se mostre organizada e acolhedora. As hipóteses atuais mais na moda: intolerância ao leite, refluxo gastroesofágico, infecção urinária, fissura anal, ocorrem em menos de 5% dos casos. Na grande maioria nada disso é identificado, mas o bebê segue em prantos e os pais, com razão, se desesperam. Bebês chorando, sem que se consiga acalmá-los, é motivo não só de aflição, mas também de eventuais condutas agressivas que vão desde sacudidas fortes demais até o extremo de espancamento e lesões graves. "Sou capaz de cometer qualquer crime", não há como esquecer Oscar Wilde.

Mas, há outra perspectiva, ainda inexplorada. A partir de casos com história de choro excessivo nas primeiras semanas, examinados em idades posteriores, permite pensar que esse sofrimento do bebê possa se dever à sua percepção mais intensa da crueza da realidade, à vivência mais realista de seu completo desamparo, em suma, bebês esses supercapacitados para perceberem a própria fragilidade ante um mundo avassalador. Um exemplo, Carlos, hoje com nove anos, percebido pela família, na escola e pelo médico, com um desempenho muito acima da média, seja no plano de aprendizado, na capacidade esportiva e na percepção de mundo, com perguntas e comentários agudos e surpreendentes. Carlos chorou intensamente, sem causa visível ao pediatra, até os quatro meses.

Talvez sejam bebês roseanos, tão cedo constatam que "viver é muito perigoso". Nascem sabendo que "a gente vive...é mesmo para se desiludir e desmisturar" e é duro demais sentir isso já nas primeiras luzes, como se dissessem: "desiludir e desmisturar" já, agora?, se recém perdi o mais forte abraço dela? Ou nascem com a dor mesma do Riobaldo de que "a vida não é entendível" ou que, como ele, Riobaldo, "quero contar é o que eu não sei se sei", por tudo isso, choro. Um filho roseano, por que não?


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