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Temer n(o) governo

26 de Maio de 2016 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Luis Rosa Sousa, de Piratini, terceiro distrito (prosasousa@gmail.com)

Temer eu temo: que meus netos me perguntem: vô, o que é um governo brasileiro? Que lhes diria? Talvez fosse bom que explicasse, primeiramente, o que é governo e, depois, como é essa coisa, no Brasil nosso.

Como minha ignorância é amazônica, entre outras coisas sobre política, acho que pegaria o Aurelião para o primeiro passo. Mas, poderíamos dar com os burros n'água, porque essa inescrutável palavra terá ali mil significados. Meus netos ficariam confusos, eu também. Iríamos, então, ao Houaiss de sinônimos, encontraremos uma salada: 1. administração, 2. comando, 3. controle, 4. freio, 5. gestão, 6. orientação, 7. poder executivo, 8. regime. Passo a temer, com forte temor, que eles se desinteressem, tais os díspares sentidos. Temo até que me venham perguntar o que é, afinal, um dicionário, coisa que eu me enredaria, tal o mar de palavras que cabem em todas as palavras. Busco outra abordagem.

Quem sabe via História: pegaria, daí, o Brasiliana 175, do Instituto Histórico e Geográfico, como é bonito e cheio de figuras, pode ser. Vem ali a imagem de Pedro II, comentaríamos que era o imperador, espécie de mancha-chuva, mandachuva? A neta menorzinha, 4, se atrapalha com metáforas. Diria "mandão", ela entenderia. Mas, vejo complicações logo adiante, como explicar-lhes que nosso imperador era ainda um menino de 12 anos ao assumir? O mais velho, 11, quererá saber quem mandava de verdade. Tem consciência, um guri mandaria em algo?

Quem sabe via jornais? Ou via TV? Governo está ligado a Brasília, isso eles conhecem, vô, o que acontece em Brasília? Vá saber. Os dois guris, mais velhos, parecem já desconfiados de que quem diz que governa, na verdade não é quem manda. Penso comigo, esses guris estão a salvo, pois cedo estão aprendendo a colocar em dúvida muito do que lhes dizem, sejam pais, tios, professores, avós ou presidentes.

Como o Brasil é ainda jovem, penso que poderia ser mais fácil apresentar-lhes o que é governo em países mais maduros. Mas, logo ao me vir a milenar China, como explicar aos meus guris que o sistema de governo ali é hoje um comunismo capitalista? De novo o mais velho, que gosta de estudar português, indagaria se não se vê nesse governo chinês um oxímoro? Como é isso certo, que lhe direi sobre formas de governo, digamos, coerentes? Maduras ou não?

Quem sabe nos concentrarmos em Brasília. Os netos mais velhos, que assistiram à votação do impeachment pelos deputados, enquanto as gurias, mais novas, "pisavam os astros, distraídas", aqueles pensariam que se tratava de uma sessão do Porta dos fundos ou do Pretinho básico. De novo, me pareceriam orientados, graças a Deus.

Devemos temer Temer? Perguntarão. O governo Temer é temerário? Antes de ensaiar resposta, lembro que governar é uma das tarefas impossíveis na cabeça freudiana, o que em nada nos aliviará em sabê-lo, mas, desinteressados já do assunto os meus netos, ante minha suprema incapacidade de algo esclarecer-lhes, decido, num esgar, propor-lhes que melhor que temer Temer ou qualquer outro, mais prudente é temer governos - em geral - no sentido de que não devemos esperar grande coisa de qualquer governante.

Remataremos a noite lendo passagens do Gracián sobre a prudência, escritas no século 14. Eles, exaustos, dormirão em paz.

 

 


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