Estilo
Crônica

O estranho que dorme lá em casa

07 de Abril de 2018 - 06h04 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrela

 

Tem um estranho dormindo lá em casa. Ele chega "sem muita conversa, sem muito explicar", como diz o Chico Buarque. Liga o som, usa o banheiro, come alguma coisa e logo sai, batendo a porta. Quando volta, acende todas as luzes, faz ruídos e mergulha no computador ou desmaia na cama com o telefone celular na mão. Sempre com um olhar perdido como se não ouvisse ou não entendesse o que lhe digo.

Cheguei a pensar que eu estava exagerando, ou até que o responsável por tal esquisitice fosse a minha falta de jeito. Já estava assumindo a malfadada culpa. Afinal, mãe é um repositório de culpas.

Depois de muito refletir e analisar, cheguei à conclusão de que o estrangeiro que entra e sai de casa está vivendo no país de um outro mundo e o seu passaporte está válido com o visto assinado pelo embaixador do coração, que não é outro senão o meu próprio coração. Coração que, antes de tudo, compreende, mas, mesmo assim, sofre com o silêncio evasivo e distante.

Cumpre dizer que o estranho assim se tornou porque se afastou a tal ponto, que desconheço o seu semblante pelos raros momentos que desfruta ao meu lado.

E, para surpresa minha, quando recomeço a enxergá-lo e acostumar-me com o seu sorriso, de repente, ele retoma os seus hábitos de afastamento e se evade para um universo particular.

Fico tentando estabelecer contato com o personagem que está mais inacessível do que um alienígena.

Perco o meu tempo!

O modernismo dos computadores computadorizou os sentimentos e fica impossível vencer as barreiras da incomunicabilidade. O fascínio pela telinha do celular age como uma barreira e os labirintos, que se desenvolvem por trás, ficam cada vez mais inexpugnáveis.

Cansei! Vou desligar os meus botões.

Quem sabe, se me ligar na internet, criando um blog para adolescentes e tudo o mais que me seja possível nesse intrincado universo cibernético, eu não descubra o meu filho, são e salvo.

Fica muito difícil conviver com esses mecanismos da modernidade que, se ao mesmo tempo que facilitam a pretensa tranquilidade de saber onde e como estão os nossos filhos, de igual forma, criam um mundo paralelo de ficção científica.

A epidemia, que está contaminando, principalmente, os mais jovens, me assusta.

Tudo é virtual. Nada mais é palpável, exceto as teclas em que deslizam os dedos com a rapidez da luz.

Penso que não dosei corretamente a permissão do uso indiscriminado da internet. Pois que, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. (Paracelso).

E, pensando bem, tudo é questão de tempo. Mais dia, menos dia, o estranho que dorme lá em casa pode me surpreender com o retorno ao lar, saindo do exílio, com celular no bolso, é claro!

 

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