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Centenário

Vida esculpida pela ousadia

Escultora pelotense Judith Bacci, que chegaria ao centenário este ano, teve a trajetória marcada pela resistência

10 de Março de 2018 - 11h02 Corrigir A + A -

Por: Ana Cláudia Dias
anacl@diariopopular.com.br 

Autodidata, a artista superou as dificuldades e obteve reconhecimento  (foto: InfoDP) (Foto: Jô Folha - DP)

Autodidata, a artista superou as dificuldades e obteve reconhecimento (foto: InfoDP) (Foto: Jô Folha - DP)

Na semana dedicada às mulheres não faltaram lembranças e homenagens àquelas que inspiram suas semelhantes, promovem grandes ou pequenas revoluções e/ou surpreendem suas comunidades. Em Pelotas há muitas que se encaixariam como referencial, uma delas chegaria ao centenário neste ano se estivesse viva, a escultura Judith Bacci. Além do legado artístico, ela deixou lições de solidariedade e empatia e mostrou, ao conquistar espaço e respeito num meio onde não era bem-vinda, que atos de rebeldia e ousadia não precisam ser coléricos, podem ser fortes sem perder a doçura.


Hábil no manejo do gesso, argila, pátina de bronze e da terracota ao longo quase 30 anos, a autodidata espalhou em Pelotas e fora do país um trabalho consistente e elogiado. Saíram de suas mãos talentosas inúmeras obras que homenagearam pessoas comuns e nomes que fizeram a história. Entre as mais conhecidas estão os bustos dos ex-presidentes Tancredo Neves, que está em Minas Gerais, e de John Fitzgerald Kennedy, na embaixada dos Estados Unidos, também do ex-governador catarinense Espiridião Amin.


Além das personalidades da região e de fora dela, a obra de Judith, que nasceu em 27 de maio de 1918, estendeu-se ao universo religioso, fazendo santos e dando forma a entidades e orixás das religiões afro-brasileiras. A mais famosa delas é a imagem de Iemanjá, que está no Balneário dos Prazeres.


Ao se computar esta intensa produção, se poderia imaginar que mostrar à comunidade que tinha talento e alma de artista foi tarefa fácil para esta mulher. Mas a trajetória dela mostra que não. "Foi uma história marcada por lutas e resistências, uma mulher, pobre, artista e negra inserida no meio elitista da arte na época; precisou superar muitos obstáculos para realizar suas obras", fala a professora Letícia Pereira.


Em 2011, Letícia defendeu monografia na especialização em Artes Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), sobre a artista. Em Arte, realismo e religiosidade na obra de Judith Bacci, a acadêmica levantou questões sobre o reconhecimento do legado da artista em Pelotas. Atualmente a professora desenvolve dissertação de mestrado sobre as obras dela, especificamente as esculturas umbandistas.


O interesse pela pelotense teve início em 2005, a partir de pesquisa sobre a arte afro-brasileira orientada pela professora Eliane Nunes, do Instituto de Artes e Design da UFPel. O trabalho que se tornaria um livro foi interrompido com a morte da orientadora, três anos depois, e retomado na especialização.

 

Dentro da escola
A história de Judith Bacci se confunde com a da Escola de Belas Artes (EBA), criada em 1949. A artista passou a integrar o corpo de funcionários da instituição privada, quando a escola ganhou sede própria em 1963, no sobrado da rua Marechal Floriano com Santa Tecla.


Judith foi contratada para atuar como zeladora do prédio no qual passou a morar e onde abriu um bar. A funcionária entrava em um ambiente exclusivo para quem podia pagar por uma educação em artes, algo para poucos na época.


Mas foi neste reduto de artistas celebrados como os italianos Aldo Locatelli e Bruno Visentin, que a tinha como "mãe preta" e o pintor pelotense Nesmaro, entre outros, que a veia artística da zeladora começou a pulsar mais forte. Na época, casada com Mario Bacci, tinha o filho Mário Eugênio e posteriormente a filha Vera Lúcia.


Na monografia, Letícia relata que Judith enfrentou o racismo também ao se unir a Mário Bacci, de origem italiana. "A união deles demorou a ser reconhecida pela família dele", diz a professora. O filho mais velho só conheceu a avó quando tinha cinco anos e o casamento só ocorreu quando Mário Eugênio tinha em torno de dez anos.

 


Pratinhos de gesso
Não se sabe bem ao certo como aflorou o dom para a escultura. Relatos dão conta de que a curiosidade e o talento natural da artista a ajudaram a captar técnicas e informações nos poucos momentos em que entrava nas salas de aula para limpar ou servir cafezinhos.


O assessor de cobranças judiciais Mário Eugênio Bacci conta que os primeiros trabalhos de Judith foram pratos decorativos de gesso. Ela utilizava louça com desenhos em alto relevo como moldes. "Ela colocava gesso sobre os pratos depois tirava a louça e pintava e vendia", relembra. O artesanato complementava a renda da família.


As esculturas viriam depois. Bacci não tem certeza sobre os detalhes, mas tem na memória que em uma aula de escultura em algum momento alguém, de brincadeira, perguntou o que ela achava sobre o trabalho dos alunos, então teria dito que aquilo ela fazia.


A primeira escultura que fez era um cão atacado por uma caranguejeira, obra que surpreendeu os professores. Na sequência fez o retrato do filho. "Daí em diante fez a família inteira e dela própria pelo espelho", conta Bacci.


As obras ganharam a admiração de mestres como Antônio Caringi, um dos que a convidava para que permanecesse nas aulas. Mas havia uma resistência por parte da direção da escola e de algumas alunas. "Havia um racismo declarado", conta Bacci.


As negativas não a desestimulavam, ela considerava as relações sólidas que havia conquistado com as pessoas do meio e o incentivo que recebia. "O talento dela transcendia o obstáculo racial e era muito forte a afinidade das pessoas com ela", conta o filho.

 

Novo momento
Em 1973 a EBA foi oficialmente anexada a UFPel, quando nasceu o Instituto de Artes. Em consequência Judith passou a integrar o quadro de servidores da Universidade e tornou-se laboratorista em cerâmica, dando apoio às aulas de escultura.


O pico de produção da artista ocorreu entre os anos 70 e 80. As obras mais famosas foram produzidas nestas duas décadas, período em que a imprensa descobriu o talento de Judith.


A escultora tinha extrema sensibilidade ao retratar, especialmente quando fazia encomendas de imagens de santos, orixás e outras entidades espíritas. A partir de descrições de como as imaginavam ela materializava os pedidos e emocionava os clientes. "Ela tinha essa capacidade e isso marcou muito também", fala Bacci.


Uma extrema sensibilidade que não passou despercebida pelo crítico, professor e jornalista Nelson Abott de Freitas, colunista do Diário Popular, lembrou Letícia em sua monografia. Em uma das colunas ele descreveu: "Não se trata apenas de captação dos traços fisionômicos... Não, ali há muito mais: há uma certa transcendência - aquele toque de magia que encanta e se faz necessário a qualquer obra de arte".

Reconhecimento
A obra da pelotense ganhou destaque nacional na década de 80, porém alguns ainda questionam se ela teve o devido reconhecimento no meio artístico de Pelotas. "Ela foi valorizada e reconhecida em vida. Independente de ter o nome da rua e de homenagens póstumas. Em vida ela foi muito homenageada em todos os meios", considera Bacci.


A mais recente homenagem ocorreu em 2012, quando a biblioteca da UFPel ganhou um espaço para ressaltar a cultura afro-brasileira e teve o acervo batizado com o nome da escultora, uma iniciativa do Seminário da Consciência Negra de Pelotas (Seconep).


O Seminário, que completa 10 anos, foi criado pela professora Rosemar Lemos, coordenadora do Núcleo de Ações Afirmativas e Diversidade (Nuaad/UFPel). Rosemar conviveu com Judith entre 1984 e 1988, quando cursava Arquitetura e Urbanismo. "Naquela época era muito maior a invisibilidade negra na Universidade. Se contava nos dedos os negros que existiam", relata.


A professora conta que, como os alunos negros precisavam de referenciais, os servidores negros tinham esse papel. "A gente conversava com ela, tomava cafezinho com ela." Tempos depois ela soube que estes funcionários olhavam as notas para saber se ela tinha se saído bem. "Porque que eu também era uma referência para eles."


Rosemar foi professora do Ginásio do Areal e lá percebeu que era necessário trabalhar com a questão da inclusão e com a educação como fator de ascensão social. "Quando eu consegui acessar a Universidade como servidora era minha obrigação trabalhar com essa questão da invisibilidade negra."


O Seconep surgiu desse desejo e a cada ano homenageia pessoas negras, um ano para personalidades femininas e outro masculinas, entre pessoas vivas e que já faleceram.

 

Modernista
Na década de 80 a escultora sentiu necessidade de seguir a tendência modernista. "Ela nunca perdeu a curiosidade e o encantamento com o mundo", descreve o professor José Luiz de Pellegrim, do Centro de Artes da UFPel.


Pellegrim conheceu Judith quando foi aluno e depois tornou-se colega na Universidade. Ele lembra que a artista quis sair do "seu lugar de conforto" no academicismo e acompanhar a vivacidade dos mais jovens. Foi quando fez figuras femininas com formas mais simplificadas. "Ela tinha uma ousadia, não ficou lá. Ela foi provocada e tentou. Faltou oportunidade para ir mais adiante por causa do contexto. A arte moderna chegou muito tarde em Pelotas", fala o professor.


Sobre a personalidade Pellegrim reafirma a doçura que encantava a todos. O professor também lembra da habilidade inigualável de Judith para salvar moldes em gesso dos desastrados alunos e do conhecimento sobre esse material. "Ela tinha disponibilidade de ajudar todo mundo. Anjo salvador que tinha um saber tão consistente que tinha solução para tudo."


Estar entre os jovens artista era uma alegria para Judith, que se aposentou e continuou trabalhando até pouco antes da morte da artista, em 31 de julho de 1991. "O ateliê era o lugar dela. Seu estar no mundo pressupunha aquele envolvimento. Era até uma questão ética."

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