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10 de Março de 2018 - 06h00 Corrigir A + A -

Por: Maria Alice Estrella

Em alguns momentos da vida nos sentimos como escreveu Amado Nervo: “Senhor, eu também tenho minha coroa de espinhos. A coroa dos meus torturantes pensamentos”.

Entre um dia e outro, os pensamentos se juntam e fazem uma festa. Festa de congraçamento, de conclusões, de planos e outras coisas mais.

Impossível ficar de fora da algazarra que eles promovem. Falam todos ao mesmo tempo com um senso de humor que foge ao senso comum. Alternam opções como quem troca de roupa no camarim de um teatro no intervalo escasso de uma tragicomédia de muitos atos.

Pensamentos são, muitas vezes, algozes torturadores. Interrogam, questionam, duvidam, estabelecem condições e sentenciam com a pena máxima, sem direito a fiança.

Evito deixá-los à deriva, no ostracismo, porque pensamento solto ao vento é perigoso. Pode viajar para outras galáxias, lugares imprevisíveis, que só existem na imaginação. E daí, fica muito difícil controlá-los.
Pensamentos são serviços de utilidade pública, não podem fazer feriado, nunca descansam, são ininterruptos. Quando durmo, eles fingem que se escondem, mas estão lá camuflados, gravitando na órbita dos meus sonhos.

O melhor de tudo é que eles me fazem companhia, estão sempre comigo e conversam, horas a fio, quando todo o resto silencia. Gosto de ficar a sós com alguns deles. Principalmente aqueles que me falam do vir a ser, das coisas que tracei como metas a alcançar. São pensamentos de vanguarda.

Hoje estou muito pensativa, rodeada de ideias que se desenrolam como um fio tecendo o dia, tricotando sonhos e propondo resultados. Quem pensa seus males encanta, pois aprisiona ideias no espaço mágico do intangível.

Aliás, tudo faz parte de um mesmo e único mecanismo, como o das roldanas e engrenagens de um relógio. Abrir um relógio, e examiná-lo em suas entranhas, é fascinante. A máquina que mede os segundos, minutos, horas, anos num compasso implacável e simétrico. O tempo deslizando, pingando gotas da torneira do espaço imensurável.

Pensamento, visto pelo lado de dentro, nas minúcias de suas vísceras, mostra retratos falados de nossas próprias verdades, no secreto do cérebro, que é máquina viva com rolamentos sincronizados por um relojoeiro onipotente: Deus.

E os pensamentos e os relógios compactuam tratados sobre a minha vida. Determinam meus passos, irreversivelmente, numa estrada de luz e sombra, de riso e lágrima, alternando ventos e tempestades com calmarias e silêncios.

Só os pensamentos desobedecem a regras e falam incessantemente. E por eles, em decorrência óbvia, é que transbordam de mim, as palavras, vertentes de um veio de água, brotando do fundo da alma.
Minhas palavras escritas são afluentes de rio, são pedaços de um relógio com mecanismos à mostra, meus pensamentos despidos de pele na transparência do simples e claro.

Escrava e senhora, faço da caminhada um convívio de guerra e paz com meus companheiros inseparáveis, amigos agradáveis e inimigos hostis que são a cópia “xerográfica” de mim mesma: - meus pensamentos!
Melhor fazer um tratado de não beligerância entre eles e um acordo de independência de poderes. Assim, consigo uma liberdade entre um minuto e outro, entre uma reflexão e outra.

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