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Oscar da diversidade

Ao invés de exaltar a disputa entre os dois favoritos da noite, a premiação chama a atenção para pequenos reconhecimentos

03 de Março de 2018 - 12h00 Corrigir A + A -

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Na 90ª cerimônia do Oscar deste domingo, nenhum apresentador poderá dizer "E aqui estão todos os homens indicados", como falou Natalie Portman durante o Globo de Ouro. Entre os cinco concorrentes na categoria de direção, há uma mulher. Greta Gerwig (Lady Bird) pode não levar a estatueta, mas sua presença aponta para uma certa mudança na maior premiação do cinema.

Esses novos ares começaram a soprar há alguns anos, quando teve início a campanha #OscarsSoWhite (na tradução, OscarsTãoBranco), que protestou contra a ausência, em edições consecutivas (2015 e 2016), de atores negros entre os 20 indicados nas quatro categorias referentes à atuação. O barulho foi tanto que a Academia prometeu aumentar a diversidade entre o corpo de votantes, formado majoritariamente por homens brancos. Apenas em 2017 foram convidados 800 novos membros, sendo 39% mulheres e 30% não-brancos.

Logo, as medidas começaram a apresentar seus primeiros - e comedidos - resultados, o que repercute não apenas na inclusão do trabalho artístico de negros, mas também da valorização das mulheres na Sétima Arte. Sem esquecer também de oferecer espaço para outras minorias como a comunidade LGBT, que viu Moonlight ganhar como Melhor Filme no ano passado - algo incabível em 2005 quando O segredo de Brokeback Mountain estava no páreo.

Este ano, além da indicação de Greta Gerwig, o cineasta negro Jordan Peele (Corra!) também se encontra na categoria de direção. Ambos realizadores ainda garantiram uma vaga de suas produções entre os melhores filmes do ano, superando o fato de serem longas que não possuem a "cara de Oscar". Lady bird é uma comédia dramática indie voltada ao público jovem e Corra é um conto de terror que aborda o preconceito racial.

Mesmo que saiam de mãos vazias, o espaço obtido pela dupla é uma conquista. O mesmo pode ser dito pela presença de quatro atores negros na disputa. Concorrem, na categoria de Melhor Ator, Daniel Kaluuya (Corra!) e Denzel Washington (Roman J. Israel Esq.), este tomando o lugar que seria de James Franco (O artista do desastre), afastado após denúncias de abuso sexual. Já entre os desempenhos selecionados para a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante aparecem os nomes de Mary J. Blige (Mudbound) e Octavia Spencer (A forma da água).

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REFLEXO SOCIAL
Além de apontar para uma maior diversidade, esta edição do Oscar oferece um recado através da sua seleção de projetos. Muitos deles possuem histórias lideradas por personagens considerados excluídos. Além de Corra, encontra-se também Me chame pelo seu nome, que aborda um romance gay, e a fábula oferecida por A forma da água, que reúne um time de rejeitados (duas faxineiras, sendo uma muda e outra negra, um homossexual cinquentão e um monstro anfíbio) para enfrentar a sociedade que os discrimina por serem diferentes.

É esta produção que lidera o maior número de indicações da noite, 13 ao total. A forma da água está entre os favoritos para levar o principal prêmio para casa. Quem promete incomodar é Três anúncios para um crime, drama dirigido por Martin McDonagh e consagrado na maioria das premiações (Globo de Ouro, SAG Awards, BAFTA, AFI Awards). A disputa deste domingo fica entre os dois projetos, num duelo entre fantasia e realidade. Ainda há possibilidade de Corra! surpreender e colocar a mão na estatueta. 

Os nove projetos indicados a Melhor Filme são praticamente os mesmos que dominam as principais categorias deste ano. A seguir, uma breve avaliação sobre cada um deles e suas chances na premiação.

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TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME
Deve ganhar: Filme, Atriz e Ator Coadjuvante 
Possui chance: Roteiro Original

Frances McDormand está uma força da natureza em Três anúncios para um crime. A veterana atriz interpreta a amargurada Mildred, cuja filha adolescente sofreu uma morte violenta. Sete meses após o crime, não há sinal de culpados e a polícia parece ter esquecido o caso. Inconformada, a mãe decide cobrar das autoridades através de textos provocativos em outdoors. 

Trabalhado na ironia e no humor negro, o novo filme de Martin McDonagh (Na mira do chefe e Sete psicopatas e um shitzu) segue a cartilha de suas obras anteriores, porém com maior êxito, principalmente quando foca em situações dramáticas. Três anúncios tem sua força numa premissa original, que envolve discussões sobre culpa, impunidade, justiça, dor e morte. Derrapa feio em sua segunda metade quando aposta numa sucessão de gags, quase se transformando numa comédia de erros a la irmãos Coen. Apesar disso, é o mais cotado para sair com o grande prêmio da noite.

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A FORMA DA ÁGUA
Deve ganhar: Diretor
Possui chance: Filme, Fotografia e Trilha sonora original

Fantasia calcada na realidade, A forma da água é uma metáfora para o mundo preconceituoso em que vivemos. Conta a história do amor improvável entre uma mulher e uma criatura monstruosa. Ambos se conhecem quando ela, faxineira de um laboratório, encontra o ser recém-capturado em uma das dependências de seu trabalho. Disposta a tirá-lo dali, arquiteta um plano e junta seus amigos para realizar a fuga.

O monstro apresentado pelo roteiro não é aquele que possui guelras e coloração verde. O vilão é a própria sociedade, com seu preconceito contra deficientes, negros, gays e todos que encontram-se fora do padrão social. A forma da água tem como certo o prêmio para Guilhermo Del Toro em direção. Sally Hawkings é forte na categoria de Melhor Atriz, mas seu desempenho impecável provavelmente será ofuscado por McDormand.

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O DESTINO DE UMA NAÇÃO
Deve ganhar: Ator e Maquiagem

Joe Wright é especialista em contar uma boa história. Não fez diferente nesta eficaz cinebiografia sobre os momentos mais importantes da trajetória de Winston Churchill enquanto Primeiro-Ministro do Reino Unido. O destino de uma nação é aquele filme com todo jeito de Oscar: história real, protagonista forte e mensagem edificante, com direito à forçada licença-poética para tudo dar certo no final. Soma-se ainda uma performance poderosa de Gary Oldman, que ganhou quilos de enchimento e maquiagem para se metamorfosear no biografado. Sem dúvidas, é dele o Oscar de Melhor Ator do ano.


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CORRA!
Possui chance: Roteiro Original

Fenômeno do início de 2017, Corra! custou apenas US$ 4,5 milhões e teve como retorno US$ 255 milhões, sendo o filme mais lucrativo de 2017. Tamanho apreço pelo público e pela crítica garantiu sua vaga no Oscar com cinco indicações, algo bastante atípico para um filme de terror. A narrativa acompanha um jovem negro no primeiro fim de semana na casa de campo da família de sua namorada branca. O encontro amigável com os pais dela não dura muito tempo, revelando muitos segredos escondidos. O filme é mais forte na categoria de Roteiro Original.

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ME CHAME PELO SEU NOME
Deve ganhar: Roteiro Adaptado

O sensível encontro, durante seis semanas, entre o jovem Elio e o acadêmico Oliver ganhou os corações de todo o mundo, inclusive dos membros da Academia. Me chame pelo seu nome desenvolve com calma e ternura a autoaceitação da sexualidade e a descoberta do amor, incluindo seus altos e baixos. Pela adaptação extremamente elogiada das páginas do livro homônimo para as telas, o filme deve garantir o prêmio de roteiro.

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DUNKIRK
Deve ganhar: Mixagem de Som e Trilha Sonora Original
Chance: Montagem e Edição de Som

Christopher Nolan filmou a guerra como um espetáculo visual em Dunkirk, projeto que chegou aos cinema no meio do ano passado. A experiência de seguir por terra, mar e ar a Batalha de Dunquerque, na França, possui como destaque a trilha sonora de Hans Zimer, construída à base de tic tac de relógio, e uma mixagem de som que toma conta da tela - e dos ouvidos. O filme é forte candidato nas categorias técnicas.

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TRAMA FANTASMA
Deve ganhar: Figurino

O extremamente elegante filme de Paul Thomas Anderson (Boogie nights e Sangue negro) foi uma surpresa entre os indicados. Ausente em várias premiações, Trama fantasma ganhou o reconhecimento da Academia com seis indicações. A história gira em torno do genioso estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis, despedindo-se das telas), sua irmã Cyril (Lesley Manville) e a nova musa do artista, Alma (Vicky Krieps). É uma história doentia sobre amor, poder e submissão, envelopada pelos mais belos e perfumados tecidos. Na tela, tudo beira à perfeição, sendo fruto do primor técnico do projeto. Para o Oscar, a vitória deve vir apenas para os deslumbrantes vestidos, consagrados na categoria de Melhor Figurino.

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LADY BIRD

Lady Bird conseguiu ultrapassar o circuito de festivais alternativos e se fazer presente no Oscar. Para uma comédie indie, o feito é significativo. Greta Gerwig, que tornou-se a quinta mulher a figurar na categoria de Direção, conduz uma tocante história sobre amadurecimento. Sem poupar as imperfeições da protagonista, a jovem Christine "Lady Bird" McPherson é egoísta, mimada e egocêntrica - justamente por isso, tão cativante. Ao longo de sua jornada, ela precisa quebrar a cara várias vezes para poder "voar". Apesar das cinco merecidas indicações, deve voltar para casa sem nada.


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THE POST

A trinca de ouro de Hollywood não poderia faltar no Oscar. Steven Spielberg conseguiu reunir Meryl Streep e Tom Hanks para pegar carona no sucesso de Spotlight e retratar mais uma investigação jornalística. The post - A guerra secreta aborda, durante os anos 1970, o vazamento de documentos secretos do Pentágono referentes à Guerra do Vietnã. O presidente Nixon proíbe a publicação de qualquer notícia sobre o caso. O longa traz mensagem que pode ser absorvida nos dias atuais, vide a crise dos jornais impressos, a ameaça à liberdade de expressão e a popularização das fake news. O filme só conseguiu duas indicações (filme e atriz), o que sinaliza suas míseras possibilidades neste domingo.


APOSTA NAS DEMAIS CATEGORAIS

Atriz Coadjuvante: Allison Janney (Eu, Tonya)
Efeitos Especiais: Planeta dos Macacos - A guerra
Trilha Sonora Original: Dunkirk
Mixagem de Som: Dunkirk
Montagem: Baby driver
Edição de Som: Baby driver
Fotografia: Blade runner 2049
Direção de Arte: Blade runner 2049
Filme Estrangeiro: The square
Animação: Viva - A vida é uma festa
Documentário: Visages, villages
Canção Original: This is me (O rei do show)

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