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Crônica

O homem por trás da lenda

02 de Fevereiro de 2018 - 09h35 Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta - lisirotta@hotmail.com.br

Ele nasceu numa família da nobreza britânica. Seu avô foi vice-rei da Irlanda. Seu pai um político de sucesso, ministro da Fazenda do Reino Unido. Sua mãe uma socialite norte-americana, filha de um multimilionário. Relacionou a sua fascinação por assuntos militares à sua coleção de mil soldadinhos de chumbo, seu brinquedo preferido durante a infância. Definiu a sua época de colégio como “os anos mais desagradáveis e os únicos estéreis de sua vida”. Contou que “todos os seus companheiros, até os mais moços, pareciam, sob todos os pontos de vista, superiores nos esportes e nos estudos”. Teve dificuldades em aprender o Latim. Foi enquadrado entre “os mais atrasados da turma de Harrow School”, por isso só pôde aprender inglês. Segundo ele, esgotou a matéria da língua inglesa, o que contribuiu com o Nobel de Literatura que recebeu algumas décadas depois. Foi cadete de cavalaria, jornalista e acabou por se dedicar à política.

Durante a Primeira Guerra Mundial foi considerado responsável pelo desastre da campanha de Galípoli, como primeiro lord do almirantado, culpa que lhe perseguiu pela vida toda. Foi acusado de belicista quando, no período entre guerras, rogou diversas vezes ao governo britânico que fossem investidos recursos de militarização, prevendo um possível ataque alemão num futuro próximo. Previsão acertada que, na opinião de estudiosos, foi uma das principais razões que o levaram a ser eleito primeiro-ministro britânico nove meses após a invasão da Polônia por Hitler.

Comandava a Inglaterra de um prédio de escritórios simples, sem nenhum conforto, passava as manhãs deitado em sua cama e tomava banho num cômodo separado do quarto. Às vezes era flagrado, pelos oficiais ingleses, andando pelo prédio seminu e molhado. Passava o dia fumando charutos e bebendo coquetéis de uísques. Seus memoráveis discursos e sua aproximação com o presidente americano Franklin Roosevelt foram essenciais para garantir o ingresso dos Estados Unidos na guerra e a vitória dos aliados. A sua revolucionária eloquência manteve a coesão do povo britânico nos momentos mais difíceis, como quando precisou decidir sobre o enfrentamento ou acordo com Hitler, ou quando Londres e outras cidades do Reino Unido foram bombardeadas pela Alemanha. Recebeu o Nobel de Literatura em 1953, por suas memórias de guerra. Foi saudado como o maior dos ingleses vivos. Seu último discurso em março de 1955 foi intitulado Jamais desesperar, embora fosse ele, como homem sábio, atormentado pelas incertezas.

É exatamente este Wiston Churchill, o ser humano complexo, encantador, bronco, afetuoso, controverso, determinado, falho e apaixonante que Joe Wright nos mostra no filme O destino de uma nação, em cartaz nas principais salas de cinema da América. O longa acompanha os primeiros dias de Churchill como ministro da Grã-Bretanha, em 1940, quando ele precisa decidir se aceita o acordo de paz com Hitler, para o qual é pressionado, ou se confronta o ditador. O diretor, que já fez adaptações literárias como Orgulho e preconceito e Anna Karenina, conhecido pelas imagens elegantes e iluminação magistral, não se descuida por um segundo sequer da essência, da alma do filme. O roteirista, Anthony McCarten, o mesmo de A teoria de tudo, é desafiador. Gary Oldman como Churchill - irreconhecível sob tanta maquiagem - faz uma atuação magnífica. Assim como Bem Mendelsohn, como rei George, Lily James como a secretária e Kristin Scott Thomas como a esposa Clementine. Daqueles filmes para ver e rever. Amei.

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