Estilo
Crônica

De janeiro a janeiro

27 de Janeiro de 2018 - 05h00 Corrigir A + A -

Por Leon Sanguiné

Nando tocava tuba. A explicação para a escolha ele já tinha decorado, tantas as vezes que perguntavam: gostou quando, ainda na escola, o professor falara que a tuba era "o coração das bandas duplas" e também lhe atraía o tremer que causava quando um Dó executava. Júlia desde pequena tinha interesse no oboé da avó, que morrera antes de ela nascer. Quando enfim alcançou para manuseá-lo, o fez e até hoje é ele que utiliza em apresentações Brasil afora. Viajavam os dois um ao lado do outro no Porto Alegre x Pelotas e quando o ônibus parou no Grill, e nenhum deles desceu, Júlia percebeu que ambos estavam indo à cidade pelo mesmo motivo: o Festival Internacional Sesc de Música. 

E os dois curtiram muito aquele período de 11 dias, seja durante as atividades do Festival, ou fora dele, ele mais grave, corpulento, ela miúda, rápida, era bonito aquele contraste. À tarde gostavam de sentar-se ao Mercado e dividir batata frita com cheddar e bacon acompanhada de cerveja. A madrugada era o momento de ir ao Porto, tomar mais algumas e enfim ir para casa misturar melodias. Uma hora acabou, sempre acaba, e, mesmo abraçados o tempo todo no aeroporto, chegou o momento em que cada um pegou seu voo para casa.

De fevereiro a dezembro, tanto tuba quanto oboé, e registros apontam que essa foi a primeira vez em que isso ocorreu na História, tanto tuba quanto oboé emitiam único mesmo som, um aaaaargh desafinadíssimo, e se Nando e Júlia não tivessem escolhido focar na profissão para esquecer um ao outro, talvez até mesmo fossem expulsos das companhias nas quais tocavam.


Em janeiro, os dois combinaram de se encontrar já em Porto Alegre, e de mãos dadas e fazendo carinho mútuo chegaram para a nova edição. E viveram tudo de novo, a delícia e a dor, e no aeroporto Nando sugeriu que abandonassem e morassem juntos. Júlia concordou, mas não houve acordo, havia dissonância entre o ponto escolhido. A solução foi seguir assim: ser feliz em janeiro, ser triste no resto. Eventualmente as vidas se separaram. Um tocou no casamento do outro.

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