Estilo
Infância

Livro de mexer

Coloridos e interativos, livros pop-up dividem especialistas em relação à contribuição na formação de novos leitores

27 de Janeiro de 2018 - 08h49 Corrigir A + A -
Pedro Cadorin, de três anos, iniciou com os pop-ups, mas hoje gosta de todos os tipos de livros (Foto: Jô Folha - DP)

Pedro Cadorin, de três anos, iniciou com os pop-ups, mas hoje gosta de todos os tipos de livros (Foto: Jô Folha - DP)

Segundo a mãe, o pequeno Pedro Sinnott, de três anos, escolhe livros não pelo formato, mas pela história e personagens (Foto: Jô Folha - DP)

Segundo a mãe, o pequeno Pedro Sinnott, de três anos, escolhe livros não pelo formato, mas pela história e personagens (Foto: Jô Folha - DP)

Em meio aos carrinhos, bonecas, bolas, um objeto recheado de folhas, palavras, imagens. A criança abre e logo na primeira página uma grande libélula parece saltar das páginas. Ela tenta pegá-la, evitar a partida, mas os familiares a tranquilizam: o inseto não é real, faz parte de livro que conta a história das invenções de Leonardo Da Vinci. O menino entende e segue fascinado, mas fica o questionamento: naquele momento, de alguma forma, houve contribuição para a formação de novo leitor? O formato pop-up é válido enquanto leitura para pequenos de dois a cinco anos, principalmente?

Pedro Sinnott e Pedro Cadorin têm três anos e são colegas de escola. Enquanto tateiam ao mesmo tempo título que aborda animais que se encontram em uma fazenda, conversam com o Estilo sobre o gosto pelos livros pop-ups. O primeiro é fã de dinossauros - essa é a resposta para diversas das perguntas feitas ao pequeno - e o segundo tem gosto variado: gosta também de tão enorme seres, mas tem carinho ao mesmo tempo por piratas e tantos outros assuntos e diz que, recentemente, gosto também por livros de "fazer assim" - folhear.

Cadorin diz que gosta dos pop-ups "porque dá para mexer". De acordo com a mãe, Tuane, esse é exatamente o barato de tais livros. "Eles gostam porque tem muito da surpresa, de descobrir o que tem escondido. Na minha época não havia esse incentivo", comenta, quando indagada se tais títulos podem contribuir para a formação de novos leitores.

Mãe de Sinnott, Carolina Cordeiro acompanha a posição. "Qualquer coisa que faça com que eles entrem em contato com a literatura ajuda. Esses livros são escritos na norma culta padrão, então ajuda na alfabetização também. Não vejo como pode prejudicar", argumenta. O pai, Luis Sinnott, também vê benefícios. "A imagem destacada facilita a entender a história e principalmente temas mais complexos que eles ainda não têm maturidade", comenta.

Os três também concordam em relação a outro fato: os dois pequenos têm plena consciência de que os pop-ups são livros, e não brinquedo, e o tratam como tal, com os cuidados específicos necessários. Além disso, escolhem os títulos mais pela história - e pela capa - do que por terem ou não imagens destacadas.

Contraste
A professora do curso de Licenciatura em Artes Visuais da UFPel, Helene Sacco, leciona a disciplina de Percepção Tridimensional e de Jogos e Brinquedos, coordena o projeto de pesquisa Lugares-Livro: dimensões poéticas e materiais, cujo objetivo é encontrar diferentes abordagens do que se entende por leitura e livro. Ela também tem a própria coleção de títulos infantis e crê que os pop-ups contribuem para a inserção de crianças no mundo das letras - ressaltando-se, porém, que todo e qualquer objeto oferecido a uma criança não é neutro, folhas coloridas ou em branco não o são. "Tudo na infância é a vertente original de um manancial de experiências que voltaremos a ter de outras formas na vida adulta. Cuidar dessas primeiras experiências é fundamental. Dei os primeiros livros para minha afilhada quando ela nem tinha nascido e pedia que minha irmã já fosse lendo as histórias. Hoje ela com quase quatro anos adora os livros. Na infância, a percepção passa a ser constituída pelas experiências do corpo como um todo que se cruzam, misturam", explica.

Helene destaca que os pop-ups não são exatamente novidade: o primeiro data de 1540 e trata de cosmologia. São livros normalmente mais caros, pois requerem uma engenhosidade maior na sua estrutura física. "Justamente é essa estrutura especial que funciona como um mediador entre o mundo real e a imaginação. Isso por ter sua forma tridimensional que salta da página, fazendo esse movimento do dentro e do fora, um vai e vem que também estimula a repetição do lúdico numa outra dinâmica. Cria-se assim um dentro, um lugar brincante onde o encantamento e a surpresa revelam à criança o livro como um objeto a ser percorrido numa narrativa, não necessariamente escrita, mas que a cada abertura de páginas o faz entrar na história", comenta.

A professora de Literatura Brasileira e Redação, Luciane Silveira, tem uma opinião diferente. Para ela, a interatividade que os livros pop-up proporciona são funções "meramente comerciais", não havendo exatamente um papel formador de leitores. "Estes títulos, considerados por muitos como livros arte, por se originarem do origami, são um apelo comercial com o público infantil. Apesar de coloridos e dinâmicos, pressupondo o mesmo conceito dos hipertextos conhecidos na internet, deixam a desejar quando o objetivo é leitura; funcionam mais como brinquedo, atividade lúdica diferenciada, do que como formadores de leitura para crianças", argumenta.

Apesar de salientar que "livro é sempre bom para a formação", a professora da Faculdade de Educação (FaE) da UFPel e pedagoga, Cristina Rosa, tende a concordar com Luciane. Para ela, independentemente da idade, a preferência deve ser por livros que tenham na literatura propriamente dita o principal destaque. "Os pop-ups são brinquedos. Na maioria das vezes não têm muito de literatura no conteúdo. Leitor não é quem pega na mão o papel colorido, é quem compreende o significado do livro", argumenta.

Cristina acrescenta que, quando a criança está na faixa dos dois aos cinco anos, a figura do mediador - pais e professores, principalmente - é imprescindível. "Alguém para apresentar o livro para a criança, iniciar a alfabetização literária. Essas pessoas são quem conhecem o valor do livro na sociedade. Vai fazer boas escolhas, mostrar como utilizar. Porque as crianças, se ficarem sozinhas, vão escolher os mais coloridos, com mais barulho, imagens."

Nesse ponto, as opiniões de Helene e Cristina convergem. Para a primeira, o papel dos pais está em saber escolher o livro a ser ofertado. "Existe um grande mercado de livros infantis com brinquedos junto, algo desnecessário, livros podem ser vistos como brinquedos. O excesso cria disfunções, como ansiedade, insatisfação e até mesmo depressão infantil", afirma, destacando o acervo da Bibliotheca Pública Pelotense, em literatura infantil como altamente recomendável no processo. "Os funcionários são ótimos, o espaço é acolhedor para crianças de todas as idades", destaca.

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