Estilo
Crônica

Olhando e aprendendo

21 de Abril de 2017 - 06h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Lisiani Rotta - lisirotta@hotmail.com.br

Meu marido e eu procurávamos um lugar no estacionamento do Shopping em Punta del Este, quando ele chamou a minha atenção para o número de idosos que circulava por ali. Acabava a alta temporada e, com a temperatura mais amena, os moradores retornavam a sua vida normal. Começamos a rir. O supermercado parecia um navio da terceira idade, tamanha a quantidade de velhinhos que passavam carregados de sacolas ou empurrando seus carrinhos, cheios de energia e atitude. O que num primeiro momento foi animador se tornou quase assustador. Chegamos a pensar que os uruguaios estivessem na iminência de extinção, pois não víamos ninguém com menos de 60 anos. Mas, não é o que indicam as pesquisas. Mesmo que a baixa taxa de mortalidade, a baixa taxa de fertilidade e a alta taxa de emigração tenham resultado no envelhecimento da população, eles não estão em risco de desaparecer. Uma notícia maravilhosa não só pelos motivos óbvios, mas também porque observar o modo de viver dos nossos vizinhos é uma lição pra nós. Eles não sabem apenas viver bem, eles sabem envelhecer bem. Não vemos nos velhos uruguaios a fragilidade e a dependência emocional que vemos nos nossos. É claro que há exceções dos dois lados. Graças a Deus, eu tenho a sorte de conhecer algumas por aqui. Mas, de modo geral, sentimos nos velhos de lá um prazer de viver que não vemos aqui.

A maioria dos idosos que vimos estava sozinha ou acompanhada de amigos.

Nenhum tinha acompanhante profissional ou familiar responsável, embora fossem em média bem mais velhos e, em alguns casos, em pior condição de saúde do que muitos dos que encontramos por aqui, amparados como se fossem incapazes. Nota-se como cuidam com orgulho do próprio nariz. Tudo bem que estamos falando de um país pequeno, que não enfrenta os problemas que enfrentamos aqui. Principalmente, em relação à segurança. Tudo bem que estamos falando de velhinhos privilegiados, com boa saúde e ótima situação financeira. Mas, o que chama a atenção, mais do que a qualidade de vida que eles têm lá, é a postura que têm diante a vida. Os velhos de lá não se comportam como velhos. Enquanto podem, comandam a própria vida. Não passam as rédeas de jeito nenhum. À nossa frente, um casal retirava o carro do estacionamento. Somava, com certeza, mais de cento e cinquenta anos. Ela dirigia e ele, do lado de fora do carro, fazia as de manobrista. Não podemos dizer que a motorista saiu com facilidade do lugar que nós, pacientemente, aguardávamos pra estacionar. Mas, em compensação, enfrentou a situação com um humor de dar inveja a gente com um terço da sua idade.

O senhor que a acompanhava nos cumprimentou, às risadas, por termos sobrevivido à ré da esposa. “Ella es um peligro!” - zombava ele. Ela então o lembrou de que ele estava de carona e que se não entrasse logo, seria deixado ali com as suas piadinhas. Depois de uma gostosa gargalhada ele a obedeceu. Os dois saíram se implicando e rindo, como dois adolescentes. Isso, que o bom humor não é o forte dos uruguaios. Tínhamos razão de estar impressionados com a cena, mas, mais do que o humor da dupla, o que nos impressionou foi a sua independência, a sua disposição, a sua postura. Percebemos o mesmo num velhinho paraplégico. Conduzia a própria cadeira, fazia as próprias compras, nada parecia empecilho para que ele levasse uma vida normal. Se observarmos os parques, os museus, os cafés, os restaurantes, as lojas, os cinemas, estão sempre lotados de velhinhos.

Tudo bem que o Uruguai é o país de população mais velha da América Latina e o de mais baixo crescimento demográfico depois de Cuba. A estrutura de faixas etárias e a taxa de fertilidade no Uruguai são uma exceção na América Latina. Assemelham-se aos países desenvolvidos. A média de idade dos que deixam o país está entre 18 e 30 anos. Justamente a idade reprodutiva. Tudo isso pode explicar o aumento da população idosa no país, mas só a cultura pode explicar o seu comportamento. É um deleite observá-los jogando bridge, à beira da praia, ou vê-los entre amigos num dos muitos paradores da Playa Mansa, onde eles se encontram para ver e aplaudir o pôr do sol. Vê-los passear com seus cachorros, dirigir seus calhambeques, viver as suas próprias vidas com prazer, é mais do que uma alegria. É inspirador. A população do Brasil também está envelhecendo. Com sorte, seremos os velhinhos de amanhã. Talvez seja hora de observar e aprender.

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