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Crônica

Desalento

02 de Dezembro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella - malicestrella@yahoo.com.br

Quase ninguém confessa que está sofrendo de desalento. Nomeio desalento a essa falta de energia que assola milhares de pessoas num soçobrar constante e inaudível. Pois que, silenciosamente, guardam na alma o desassossego das lutas que travam contra o desânimo sem conseguir enxergar a luz no fim do túnel. Alguns dizem: estou com depressão! Porém eu prefiro dar outra denominação a essa sensação. Eu a chamo de desalento. Desalento puro e simples.

Como encontrar a solução? Desfaz-te de rotinas, dispa-te de frustrações. Energiza-te!

Acredito que o desnível entre as doações e as aquisições de energia, gera desgastes nos relacionamentos, inclusive no modo como nos relacionamos com a vida. Na maioria das vezes, recebemos muito e oferecemos menos e concedemos mais e colhemos o mínimo ou quase nada.

A gratuidade é qualidade de raros. E faço menção à gratuidade do celeiro íntimo que cada ser humano traz em si. Um celeiro abastecido de sonhos, de experiências, de esperanças, de desapontamentos (nesse caso, a energia é adquirida por choques de alta voltagem de alento), de colheitas adubadas com lágrimas e sorrisos.

Afirmo com convicção que é urgente a partilha, a troca, o dar e receber de energias para que o desalento não nos acometa.

Existem energias várias: a energia do toque, a do olhar, a do sorriso, da palavra suave, da adivinhação do outro, da firmeza do ombro, do consolo sempre válido.

A energia do abraço, então, é forte por demais. “Somos anjos com uma asa só. Para voarmos precisamos nos abraçar” (Luciano Bellocchi)

Muitas vezes, ao longo da existência, sonegamos energias com medo de esvaziar nosso estoque. Sonegar energias deveria ser um delito previsto em lei com penalidade máxima.

Pois fiquem sabendo, os que desconhecem esse detalhe, que energia se multiplica ao ser doada e volta com carga total ao remetente.

Corajosos os que semeiam, colhem e distribuem energias no passar das horas na simplicidade de um gesto de carinho. Abastecem a alma de outrem numa demonstração concreta de afeto que, se bem compreendida, gera mais e mais energia.

Foram muitas as ocasiões em que fui alvo de algum desalento. Parecia que o chão fugia aos meus pés, que o vazio era muito maior do que eu, que a angústia corria nas veias como veneno, que se paralisava em mim a vontade de ir adiante, que lágrimas invisíveis escorriam pela face da alma em absurdo silêncio e solidão.

Desbravei as fronteiras que me separavam da alegria e encarei meus medos e meu desânimo no rescaldo da energia que, mesmo escondida, ainda existia no profundo de mim. Desfiz-me do silêncio e compartilhei minhas dificuldades. Recusei-me a ceder ao invasor desalento.

Mas o segredo para dar cabo do desalento é individual. Minha experiência pode ser partilhada, mas sem a pretensão de que seja aplicada no plano peculiar de cada um. Inexiste receita. A chave mágica para nos livrar do desalento está dentro de nós. Basta encontrá-la. Difícil, mas nunca impossível.

Viver o dia a dia é, também, fazer um balancete e descobrir como anda o teu banco de energias quando os que convivem contigo precisam do teu apoio, do teu sorriso, da tua paciência, do teu tempo, da tua parceria.
Cuidado com o saldo devedor. Na balança da vida é urgente ter equilíbrio entre o débito e o crédito.

Se pressentires que entrarás no “vermelho”, trata de suprir o montante de energias, distribuindo atenção, carinho, sensibilidade na percepção lúcida das necessidades do outro. Receberás o retorno benéfico do alento.

Enamorar-se pela vida a cada dia é um desafio carregado de excelentes energias. Não hesita! Abre a porta do coração, acende a chama da energia, sem medo de ser feliz (ou não). O resultado será gratificante, certamente.

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