Estilo
Crônica

Em algum lugar

02 de Dezembro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Thais Russomano

Ela era da geração de minha avó Rosah, mas fazia parte de minha lista de amigas. Gostava de seu jeito alegre, da voz forte, do riso descontraído. Luiza sempre conversava muito comigo sobre a vida - colégio, faculdade, viagens, amores -, enquanto me enchia de doces preparados exatamente como eu gostava. E eu adorava e devorava tudo.

Ela e minha avó se falaram todos os dias ao telefone por décadas! Nada ocorria em suas vidas sem a outra saber. Essas visitas telefônicas, como eu as apelidei, costumavam atravessar as horas, sempre repletas de confissões a fazer, tristezas a dividir e alegrias a compartilhar.

Na última vez que a vi, Luiza já não morava mais no casarão de esquina que muito me impressionou na infância e que chamava de Palácio Py Crespo. Dessa feita, ela estava num apartamento no centro de Pelotas.

Como sempre, porém, não faltaram conversas, risos e doces. Na saída, ela me acompanhou até a porta e de lá me deu um longo abano. Entrei no elevador com o medo ou o pressentimento de que não mais nos veríamos neste mundo terreno.

E não nos vimos mesmo! Luiza partiu no dia 22 de novembro, quase 20 anos depois de minha avó. Ao longo desse período, imaginei o quanto não lhe fizeram falta as longas visitas telefônicas. Nunca lhe perguntei, mas, um dia, confessei que gostaria que minha avó tivesse testemunhado algo que fizera. “Será que não viu de algum lugar?”, indagou.

Hoje, quero crer que as duas primas e velhas amigas se reencontraram nesse “algum lugar”, trocaram um longo abraço e logo retomaram a conversa repleta de confissões. E, para não atrapalhar mais, coloco aqui o meu ponto final. Depois de matarem as saudades, creio que elas acharão o momento certo para ler juntas essa homenagem.

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