Estilo
Crônica

Despegar-se

11 de Novembro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Maria Alice Estrella - malicestrella@yahoo.com.br

A sonoridade do verbo me chamou atenção ao ser dito no idioma espanhol quando da decolagem de um voo.
Meus pensamentos deram voltas e voltas em torno do significado. Eu nunca ouvira na minha língua natal. Assim que pude fui procurá-lo no dicionário e para meu encanto descobri o verbo “despegar (se)” em português.

Mas o importante de tudo isso é o significado que ele traz consigo na imagem que constrói em mim.
Passei a vida aplicando esse verbo nas minhas inúmeras despedidas sem saber como expressar a sensação que me inunda a alma. E é exatamente a sensação de despego.

Separar-se do que é bom e do que não é tão bom assim. Doloroso exercício de afastar-se por momentos de convivências e afetos.

Apesar de serem considerados sinônimos, despego e desapego tem sentido diverso quando se trata de emoções e sentimentos. Desapegar é perder a afeição, deixar de ter envolvimento, perder a dependência, gerando indiferença e desinteresse. Despego é apartar-se com a promessa de retorno, é despedida com a esperança de retorno.

Desapego é libertar-se, é deixar de estar afeiçoado. Despegar-se é descolar da alma e do olhar temporariamente pessoas e situações com a promessa de um reencontro.

Desapego é permanente. Despego é momentâneo.

Nas vezes em que me desapego deixo de lado o desnecessário, o que deixou de ter utilidade, o que feriu e magoou e, como bem escreveu Chico Buarque; “Se na bagunça do teu coração meu sangue errou de veia e se perdeu...”. Se é preciso desapegar-se de afetos, diga-se de passagem, é porque nunca existiu verdadeiro afeto.

Despegar-se, ao contrário, é por um lapso de tempo, se ver distante de afetos que permanecem apesar da distância e do espaço. Lugares que podem ser revisitados, instantes que podem ser revividos.

Despegar-me não me torna indiferente. Torna-me expectante personagem à espera do próximo encontro, do próximo voo, do próximo abraço.

Se a tristeza das despedidas se origina do despego e causa a sensação de apartar-se, serve de consolo saber que as conversas poderão ser retomadas de onde foram interrompidas, que o abraço terá continuidade, que o afeto se fortalecerá pela ausência.

Desapegar-me vai mais fundo. Coloca ponto final em relações com fatos e objetos, com gente e com afetos que extrapolaram as fronteiras do permissível e do coerente.

Lupicínio Rodrigues explicitou o desapego nas linhas da canção: “Nunca, nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar, nem mesmo assim, as pazes contigo eu farei...”.

Em contrapartida, Tom Jobim fala do despego em uma das suas famosas composições: “Vou voltar. Sei que ainda vou voltar para o meu lugar. Foi lá e é ainda lá, que eu hei de ouvir cantar minha sabiá...”.

Entre desapego e despego, fico com o segundo, enquanto me for permitido escolher.

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