Estilo
Crônica

Roda viva

07 de Outubro de 2017 - 06h00 Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella - malicestrella@yahoo.com.br

Aprecio muito a poesia das canções e nelas, algumas vezes, encontro resposta para muitos dos sentimentos que me acompanham.

Hoje acordei pensando na letra de Roda viva do Chico Buarque: “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu, a gente vai contra a corrente até não poder resistir, na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir...”.

Bem assim. Nessa torrente dos últimos tempos foi dessa maneira que me senti. E, provavelmente não devo ser a única a perceber a roda da vida desse modo.

Momentos de torrentes de situações que me rodeavam e criaram um torvelinho em que, sem querer, mergulhei.

Por mais que eu tenha lutado e tentado me manter a margem, sucumbi às tormentosas preocupações.
Em meio ao furacão não consegui colocar os pés no chão, nem manter “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”.

Em momentos assim é muito fácil perder o foco. Deixa-se de colocar cada coisa no seu devido lugar. Tudo fica muito atrapalhado, congestionando a ordem lógica dos pensamentos. Os acontecimentos são atropelados pela roda da presunção e, esmagados pela urgência em resolvê-los, se transformam em algozes do nosso bem-estar.

O próprio decorrer do tempo vai acomodando o que para nós é impossível. Dia após dia se passa da penumbra para a luz. Caminho lento, mas inexorável.

Daí, a gente olha por sobre o ombro para o que ficou pra trás. E chega a sorrir das angústias passadas.
Essa é uma das maravilhas de sobreviver, a de ultrapassar os limites impostos pelos desassossegos e conseguir encontrar respostas ao que supúnhamos indecifrável.

E a gente vai contra a corrente até não poder resistir, mas sem desistir porque tem a volta, existe o retorno nessa roda viva que circunda nossa existência.

Os dias tem se mostrado mais amenos nessa chegada da Primavera e com ela nascem novas folhas, novas esperanças.

A ceifa de alguns galhos promove a brotação de outros e assim seguem as estações da Natureza, cada uma com suas peculiaridades.

Os tempos que vivi antes da chegada dessa estação deixaram mais marcas e rugas ao redor dos meus olhos. Muitas cicatrizes de preocupações e angústias, de medo e de inquietude como se eu fosse responsável pelos infortúnios e pudesse evitá-los.

Percalços são assim mesmo: dificuldades que nos brindam com a impressão de que são eternas.

Ainda bem que tudo passa. Até mesmo o que me parecia impossível, graças ao desânimo que me acudiu.

Quase tudo se transformou e se renovou nesse tempo que me envolveu hora a hora.

Depois do vendaval surgiu a calmaria aparente, pois nunca sei quando serei abordada por outros incômodos novamente, porque os dissabores estão inclusos no preço pago pela passagem.

Aliás, somos todos passageiros nesse barco, que retorna ao porto na calmaria, com os que conseguem sobreviver às tempestades.

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