Análise

Debater é preciso!

05 de Setembro de 2014 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

por Márcio Ezequiel, historiador e escritor 

Sabe por que não se discute futebol, política e religião? Porque não sabemos discutir. Não temos a maturidade nacional suficiente para lidar com as diferenças. Ante as diferenças de linhas ideológicas ou filosóficas, prevalecem a intolerância e o dogma. Ante a falta do exercício do debate, o impensável nos pega despreparados. As torcidas organizadas, as alianças e os apoios políticos vendidos, as redes de poder, as verdades e as hipocrisias de muitas religiões surgem como? Nós construímos tudo isso sempre que evitamos o diálogo. Debater é preciso. Não temos como crescer em cidadania amordaçados ante caixinhas de surpresa, de Pandora ou de preciosas promessas.

No campo do imponderável e diante das bizarrices do insondável, começamos a mostrar a falta de diálogo. Os protestos do ano passado esvaziaram-se quando se percebeu que não se sabia a que se vinha. Fomos na onda da torcida. Unanimidade no seu lado do estádio. Aí ficamos chocados quando a realidade se apresenta diferente. Dos 7 a 1 no mundial à Marina (quase) no segundo turno nos vem sempre a mesma indagação: o que foi isso? E não achamos uma resposta fácil. Talvez a resposta seja a mais simples. Foi a velha ilusão do jeitinho brasileiro. Repetem-se sem pensar boatos desse ou daquele candidato com um fanatismo digno de uma torcida organizada ou à beira do fundamentalismo religioso.

Por toda parte se ouve que agora a solução para o Brasil é tirar o PT a qualquer custo. Não interessa quem venha a dirigir o país. A maioria vocifera alucinadamente por mudança, mudança. Não importa no que, tem que mudar. Ilusão do jeitinho. Solução mágica. Educação, segurança e saúde, outros disparam quase como um grito de gol. Querem um presidente capaz de desconcertar os problemas sociais e econômicos com dribles de pernas tortas. Ilusão e jeitinho. Grande parte contenta-se somente em xingar a mãe do juiz. Ladrão! Tem que acabar com a roubalheira. Querem uma madre superior, mãozinhas juntas governando na bondade ingênua de uma terra sem males. O pastor falou e o rebanho diz amém. Quem ousará debater?

Essa de que não se discutem certos assuntos é resquício dos períodos ditatoriais no Brasil, que em sua história republicana terminaram muito recentemente. Ou seja, ainda não aprendemos a debater. Impropérios homofóbicos de Norte a Sul. Racistas, de Sul a Norte. Quem, afinal, estaria com a razão? Técnico, jogadores ou a torcida? Políticos ou eleitores? Quantos de nós entendemos que o outro possa ser diferente? Seja nas concepções filosóficas, religiosas, sexuais ou políticas? Será que não está na hora do brasileiro mudar a si próprio? Quantos de nós analisamos os programas de governo? Quantos conhecemos o histórico dos candidatos? Acompanhamos projetos de parlamentares que elegemos pelo bem comum, sem interesse em ganhar dentadura ou carguinho comissionado? Se temos maus políticos, também temos uma cidadania fraca, mal exercida, imatura.


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