Manifesto

Protesto por água, casa e dignidade

Moradores que aguardam transferência para o loteamento Barão de Mauá reivindicaram nesta terça-feira

30 de Novembro de -0001 - 00h00 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

A tarde ensolarada desta terça-feira foi de manifesto aos moradores do prolongamento da avenida Bento Gonçalves, às margens do canal Santa Bárbara. Com caixas de papelão transformadas em cartazes, ornamentados com balões azuis, as famílias voltaram a cobrar a transferência ao loteamento Barão de Mauá, na Zona do Porto, aguardada há meses. Com o auxílio de duas charretes eles repetiram a estratégia de 16 de setembro e fizeram interrupções rápidas - de aproximadamente um minuto - no trânsito. O protesto durou exatos 33 minutos, das 14h50min às 15h23min; o suficiente para o recado ganhar eco: Quanto tempo vamos esperar para ter uma casa para dar aos nossos filhos?

A Guarda Municipal (GM) foi a primeira a monitorar a manifestação. Em seguida, chegou a Brigada Militar (BM), em três viaturas e com integrantes do Pelotão de Operações Especiais (POE); um deles com arma em punho. Um contraste diante do manifesto liderado por mulheres e crianças e em tom pacífico. Apenas o que se ouvia era um coro de "Queremos casinhas" acompanhado pelo batuque de panelas ao fundo.

Uma luta por dignidade

As cerca de cem pessoas que vivem ali, em área de risco, moram em casebres improvisados. Inclinados. Ameaçados pelo novo temporal. O fornecimento de energia elétrica não é regularizado. A água que garante os hábitos de limpeza e de higiene - realizados de forma precária - vem de um ponto instalado embaixo da ponte sobre o canal Santa Bárbara. Ou, melhor, vinha. Desde as últimas chuvas, o cano foi levado e as famílias têm de buscar a água ainda mais longe. Uma das opções é o Terminal Rodoviário.

"Quem tem charrete, ainda menos mal, porque pega a bambona e vai buscar, mas quem não tem, passa um trabalhão", afirma a jovem Paula Neves de Ávila, 26, uma das moradoras mais antigas do local.

Mãe de três filhos, ela lamenta a falta de oportunidades. "Tenho curso de empacotadora e de vendedora. Já deixei currículo em tudo que é lugar, mas quando o pessoal sabe que moro aqui, é uma discriminação só", resume e sonha em ter em mãos uma conta de luz que se transforme em prova do endereço fixo. "Quem sabe, assim, não consigo um emprego?".

O que diz a prefeitura?

O chefe da Unidade Gerenciadora de Projetos (UGP), Jair Seidel, garante que os primeiros contemplados com as 152 residências do Barão de Mauá começarão a ser transferidos na próxima semana, obedecido o cronograma de localização das casas. O processo, entretanto, deve estender-se durante o mês de outubro. "Não se conseguiu concluir o sistema elétrico", explicou e mencionou as chuvas para justificar a demora, em telefonema na tarde de ontem, direto de Brasília.

Em 16 de setembro, após manifestação no prolongamento da Bento Gonçalves, Seidel afirmou que o loteamento deveria estar totalmente concluído até o final do mês. Com a declaração, as famílias reviram a decisão de realizar novas manifestações. Sem o cumprimento, de novo - já que ao longo de 2013 ocorreram outras postergações -, o 1° de outubro foi dia de voltar às ruas.

Relembre. A fase de obras de infraestrutura do Barão de Mauá
iniciou em 2009. As residências estão concluídas pela
empresa Artefatos de Concreto Pedro Osório (ACPO) desde junho do ano passado. A conclusão do empreendimento dependia de uma obra para transposição da rede de esgoto do arroio Santa Bárbara, além da criação de uma rede elevatória que atendesse o loteamento. Enquanto isso, algumas unidades tiveram vidros quebrados e telhas e fiação elétrica roubados. O investimento do Ministério da Integração Nacional atinge R$ 4,87 milhões. A contrapartida da prefeitura é de R$ 670 mil.


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