Reportagem aborda uma paisagem pouco conhecida na região  (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Reportagem aborda uma paisagem pouco conhecida na região (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Descobrindo Candiota

Histórias e cenários do pampa ainda pouco conhecido

Em série de reportagens dividida em três capítulos, o Diário Popular mostra a redescoberta de um município pelas lentes do curta-metragem Candiota Natural

03 de Abril de 2013 - 07h15 Corrigir A + A -
Reportagem aborda uma paisagem pouco conhecida na região  (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Reportagem aborda uma paisagem pouco conhecida na região (Foto: Carlos Queiroz - DP)

A tarde cai na campanha. Uma estrada de chão contorna o pequeno monte de terra. Conforme o andar, a visão das pedras negras expostas pelo caminho torna-se cada vez mais frequente. Atrás do morro, ao lado da estrada, um imenso buraco. Uma cratera. O pampa sangra pela ferida aberta em sua superfície.

> Veja abaixo da matéria vídeo que mostra cenas registradas durante a reportagem
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Candiota é uma cidade incrustada no sul do Estado. O carvão brota à flor da terra como uma dádiva duvidosa. O mineral é assunto nestas bandas há mais de um século. A rocha sedimentar já despertou o interesse de ingleses, espanhóis, portugueses e tantos outros que queriam ser os donos da riqueza abundante deste chão.

Hoje, Candiota desperta sonhos em uma legião de trabalhadores que chegam dos mais longínquos recantos do país - e até de fora dele - em busca de serviço. A usina não cessa. Faça noite ou faça dia, faça sol ou faça chuva, lá está ela ambientada na paisagem do município. Mas vistas de longe, as grandes chaminés não são os únicos símbolos de desenvolvimento no horizonte dessas terras. Ao aportarem na cidade, muitos dos trabalhadores que jogam suas vidas nas mãos de Deus atrás da prosperidade encontram mais do que um trabalho digno. Deparam-se com o aconchego de uma querência. A terra fértil, a história escondida, a rotina tranquila na mansidão de rios e arroios que (como eles) também levam a vida em suas veias.

A convite do grupo Rastro Selvagem em parceria com a prefeitura de Candiota, o Diário Popular foi desbravar um interior até então pouco conhecido. Ouvir histórias, redescobrir lugares, registrar palavras. A viagem serviu para visitar alguns locais que serviram de cenário para ilustrar o - ainda inédito - curta-metragem Candiota natural. Um vídeo, realizado pelo grupo Rastro Selvagem e viabilizado graças ao financiamento oriundo de um edital público da Eletrobras - Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE).

A série de reportagens Descobrindo Candiota, foi dividida em três partes. Neste primeiro capítulo o Diário Popular aborda um local pouco conhecido - inclusive pelos moradores da região. Os chamados paredões de pedra do rio Jaguarão. Além de uma área de beleza conservada na vastidão da campanha.

Histórias do rio
O caminho é longo. Partindo de Candiota, são quase 75 quilômetros de uma seca estrada de chão que passa por pequenas propriedades, onde a produção agrícola movimenta a economia e os retos caminhos dos eucaliptos abrigam espécies como emas e veados. Logo após cruzar o limite entre Candiota e o município de Aceguá, chegamos a uma propriedade rural. A antiga estância em pleno funcionamento é porta de entrada para coxilhas pampa adentro. Conforme nos aproximamos do rio Jaguarão, a mata ciliar envolve os caminhos como uma barreira natural. A vegetação nativa acompanha a comitiva até as margens do grande rio.

O Jaguarão é o principal rio desta bacia. Nasce na Serra de Santa Tecla, município de Hulha Negra e parte rumo ao extremo sul até jogar suas águas na lagoa Mirim. O silêncio da mata só é rompido pelo barulho do barco. Quem nos leva pelas curvas do rio são dois funcionários públicos de Candiota, Emerson Esteves e seu Magaille.

Esteves é natural de Candiota. Aos 40 anos, ele afirma que só havia ouvido falar nesses paredões. "Eu vim com a equipe do Rastro Selvagem dias atrás, mas só ouvia falar, já que é propriedade particular e por água não dá pra chegar. Tem paredões de mais ou menos 80 metros de altura, mas não achei que fosse tão grande", diz.

De acordo com Esteves, a região é protegida pelo difícil acesso. A estrada mais próxima passa longe. "Pela água seria preciso cortar as árvores que fecharam o caminho rio acima", diz.

Seu Magaille é um personagem conhecido na cidade. Por onde passa, brada causos e histórias. Descendente de italianos com alemães, Magaille é funcionário público mas diz ter 21 profissões. "Me criei na campanha de Jaguarão. E já trabalhei fazendo de tudo um pouco", diz. Aos 73 anos, esta não é a primeira vez que este senhor vai até o paredão. "Vinha quando era pequeno, mas depois fiquei muito tempo longe. Isso aqui é uma selva. Se levava uma semana pra chegar até aqui. Minha família colocava um aviso na rádio: ‘Atenção fulano, estamos saindo de Bagé e não sabemos quando vamos chegar’. Era assim que acontecia a comunicação na região", conta.

Rio abaixo outras histórias surgem. "Quando viemos o capataz da estância nos mostrou uma toca que diz que era de um leão baio que tinha aqui", afirma Esteves. "Mas os bichos que eu sei que tem é jaguatirica, gato do mato, zorro, mão-pelada, capincho, lontra e o lobo guará o pessoal diz que tem, mas é difícil de achar", conclui.

Leão baio
Nas paredes da pedra, uma pequena caverna. "É a toca do leão baio", diz seu Magaille. A história do provável último puma a habitar o local é um drama com pitadas de tragédia e tristeza. Nos são contadas duas histórias. A primeira, a trágica. "O leão baio comia todos os cordeirinhos assim que nasciam. Ninguém conseguia caçar ele nem ir até a toca. Aí então um dia, há uns 45 anos, chamaram um pessoal do exército que escalou até a toca e matou o leão", conta Magaille. Já o outro morador da região, Emerson Esteves acredita que o puma morreu de velho. "Como não devia ter outros aqui, esse sobreviveu por viver nesse lugar isolado, mas não conseguiu se reproduzir", diz. Morreu como um estranho em sua própria casa. Condenado a não ter mais futuro pelos campos da região.

O estudante de Ecologia Pablo Ribeiro diz que esta é uma das espécies consideradas extintas por essas bandas. "O bioma pampa também abrigava espécies que hoje são encontradas no pantanal e no cerrado, como o puma e o lobo guará", diz.

Hoje a população total estimada do lobo guará na América do Sul é de pouco mais de 23 mil. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), o estado de conservação da espécie é pouco preocupante, mas no Brasil o lobo guará é considerado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) uma espécie ameaçada de extinção, com estado de conservação vulnerável. "Isso representa o estado de degradação que esta região sofreu durante a colonização. A ideia de que não existem onças no Rio Grande do Sul é algo recente. Esses animais existiam aqui mas foram corridos devido às ações dos humanos que acabaram com a área necessária para essas espécies sobreviverem", diz. Um exemplo, segundo Ribeiro está na origem do nome do município de Canguçu, localizado próximo a Pelotas. "Canguçu significa algo como mato fechado infestado de onça. Que é um termo indígena derivado da palavra acaanguaçu. Ou seja, os índios chegaram a inventar uma palavra para definir um mato na região repleto de onças", diz.

Inspiração ao cancioneiro
"Esse projeto me proporcionou uma das melhores visões que eu já tive, que é a desses paredões. É inimaginável. Cada vez que tu olha tu enxerga uma coisa diferente nele", afirma Emerson Esteves, rodeado de pensamentos. A paisagem isolada é mesmo inspiradora. "Pouca gente conhece isso aqui, mas o lugar é famoso", diz seu Magaille.

Há muito uma história corre pela região. Uma das mais famosas e populares músicas do cancioneiro gaúcho teve sua inspiração nas milenares rochas expostas às margens do rio Jaguarão. Fruto de inspiração espontânea gerado pelo amor aos pagos do Rio Grande do Sul.

"Correu notícia que um gaúcho lá da estância do paredão/Tinha um cavalo tordilho negro, foi mal domado, ficou redomão." A beleza simples nas linhas escritas por Vítor Mateus Teixeira - mais conhecido como Teixeirinha - são parte da narrativa da música Tordilho negro.

A história parece ser mesmo verdade. De acordo com Márcia Teixeira, filha de Teixeirinha e diretora executiva da Fundação Vítor Mateus Teixeira, o paredão do Jaguarão foi mesmo a inspiração. "Não temos como comprovar, mas sabemos que foi neste local que a ideia da música surgiu para ser composta", conclui.

 


Comentários

  • Volnei Zibetti - 03/04/2013
  • antonio - 03/04/2013

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