(Foto: Carlos Queiroz - DP)

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Descobrindo Candiota

Campos do município revelam descobertas sobre a história gaúcha

No segundo capítulo da série de reportagens sobre o curta-metragem Candiota natural, o Diário Popular recupera parte do Estado

04 de Abril de 2013 - 07h03 Corrigir A + A -
 (Foto: Carlos Queiroz - DP)

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A cidade é conhecida como a Capital Nacional do Carvão. Todos os dias, muitas pessoas se deslocam de outros lugares da região para trabalhar nas usinas termelétricas do município. Mas quem cruza a BR-293 rumo à cidade não consegue ver da janela do ônibus os pedaços de história que passam diante dos olhos. Os campos nos arredores da zona urbana abrigam uma série de locais com importância histórica ímpar. Seja pela grandeza dos feitos ocorridos nessas terras, seja pela simbologia do registro de uma época. Aqui, em pleno campo aberto está parte do começo da história que moldou o Rio Grande do Sul.

A convite do grupo Rastro Selvagem em parceria com a prefeitura de Candiota, o Diário Popular foi desbravar um interior até então pouco conhecido. Ouvir histórias, redescobrir lugares, registrar palavras. A viagem serviu para visitar alguns locais que serviram de cenário para ilustrar o - ainda inédito - curta-metragem Candiota natural. Um vídeo, realizado pelo grupo Rastro Selvagem e viabilizado graças ao financiamento oriundo de um edital público da Eletrobras - Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE).

A série de reportagens Descobrindo Candiota, foi dividida em três partes. Na terça-feira (2) você acompanhou uma incursão até o paredão do rio Jaguarão, com suas histórias de preservação, extinção e inspiração. Neste segundo capítulo o Diário Popular vai até os arredores da zona urbana de Candiota onde a evolução repousa. Pedra sobre pedra cria-se em Candiota um retrato de tempos idos, onde a ação do tempo maltrata as sobras de um "interior" presente no inconsciente coletivo dos gaúchos. Como anfitrião, contamos com a presença do pesquisador de história, Cássio Lopes.

Manancial histórico
A região da Campanha Gaúcha se estende ao longo da fronteira com o Uruguai como um grande manancial histórico cultural. Cássio Lopes é um pesquisador bageense, há muito encantado com as histórias de Candiota. "Durante a maior parte do tempo, esse território fez parte da Espanha. Mesmo com o Tratado de Tordesilhas, o de Madri e o de Santo Ildefonso. Só em 1801 os últimos espanhóis da região foram espantados pelos portugueses que acabaram povoando o local", diz.

Saímos do centro de Candiota de carro e percorremos 22 quilômetros em estrada de chão rumo ao Cemitério Alto Santa Rosa. No caminho a soja - praticamente em época de colheita - salta pelas coxilhas acompanhando a campanha. Os campos preenchidos pelo grão dividem espaço com os resquícios do passado. No alto de um dos montes, com fácil acesso e lavado pelo vento, está o Cemitério.

Alto Santa Rosa
No fim da tarde, tomado pelas figueiras, o local guarda o silêncio em suas tumbas. Praticamente abandonado, durante a maior parte do tempo nem mesmo os raios do sol conseguem tocar o chão do campo santo. Somente o vento, pelas frestas dos muros, ousa entrar em seus domínios.

De acordo com Lopes, este cemitério rural não conservado remonta o período do surgimento dos antigos vilarejos. Em 2012 o local chamou a atenção de Jayme Monjardim, diretor do - ainda inédito - longa baseado na obra de Erico Verissimo, O tempo e o vento, que o utilizou para gravar algumas cenas do filme.

De acordo com Lopes, o cemitério recebeu o nome de Alto Santa Rosa por uma questão histórica. "Os espanhóis chamavam essa região de Rincão de Santa Rosa. Já que aqui perto foi montada, em 1777, uma guarda para proteger o território chamada Guarda de Santa Rosa. Com a chegada dos portugueses, esta guarda foi a última resistência espanhola."

Segundo o pesquisador, o cemitério surgiu das sesmarias. Porções de terras distribuídas aos estancieiros destinadas à produção agrícola. Mesmo com a pouca conservação as antigas lápides do século 19 comprovam a antiguidade do local. "Mas muitas aqui não possuem inscrição. Esse espaço aqui deveria ser tombado como patrimônio histórico para ser restaurado. Isso aqui é um ponto estratégico ligado à origem da região", diz. Um símbolo do poderio econômico da região, da colonização.

Saindo do Cemitério, próximo dali, vê-se da estrada uma grande estrutura no meio do campo. Um gigantesco curral de pedra circular com cerca de 60 metros de um lado a outro. "Isso é um comprovante do uso da mão de obra escrava usada nessas atividades e do trabalho dos estancieiros, já que cabe muito gado dentro daquele mangueirão", diz.

Um mausoléu a campo aberto
Outro local que guarda o passado nostálgico da região é o chamado Passo do Tigre. Próximo ao vilarejo mais antigo da cidade está o Mausoléu do brigadeiro Manoel Lucas de Lima. O jazigo possui uma arquitetura ímpar, cravada no interior de Candiota. O monumento não é tombado e contém nove gavetas trabalhadas com adornos em "portunhol", inclusive com homenagens do exército brasileiro da época. "O brigadeiro nasceu em Piratini. Sua família ganhou sesmaria aqui e ele lutou na revolução farroupilha e na Guerra do Paraguai", conclui.

O grande forno
Entre tantas histórias esquecidas de Candiota, uma chamou a atenção do pesquisador Cássio Lopes. Há alguns anos alguns pescadores relatavam entre si que próximo ao arroio Candiota havia um "forno grande tapado pela mata". "Então comecei a pesquisar no diário do coronel Manoel Lucas de Oliveira e encontrei o registro em 1865 da produção de cal próximo ao arroio", diz. A construção esquecida surge no meio da mata como uma alusão aos tempos remotos da localidade. Segundo o pesquisador, o proprietário da caleira foi Manoel Lucas de Oliveira, combatente na Revolução Farroupilha como um dos principais líderes e ministro da guerra do Rio Grande do Sul. Entre suas batalhas está a do Seival, decisiva para a proclamação da República Rio-Grandense e ocorrida também em território - hoje - de Candiota.

Mesmo que o local exato da batalha ainda desperte dúvida nos historiadores, hoje o palco da luta é indicado como sendo no chamado "Campo dos Meneses", às margens do arroio Seival. O ponto histórico é marcado pela presença de um arco alusivo, construído na beira da BR-293. Em 10 de setembro de 1836, 400 farrapos travaram um dos mais sangrentos combates da revolução contra 560 homens do império brasileiro. Entre mortos e feridos, os farrapos levaram a vantagem.

Para preservar a cultura
Com tantos espaços históricos, a prefeitura de Candiota já se mobiliza para fazer um resgate de parte do acervo desse manancial cultural. De acordo com o prefeito Luiz Carlos Folador (PT), o local que irá concentrar e abrigar a história da região é a chamada usina velha. "Conseguimos R$ 6 milhões para restaurar a usina velha e estamos abrindo o edital para as empresas interessadas no serviço. Vamos criar um grande espaço cultural multiuso com biblioteca e cinema", diz. Segundo ele após o início das obras, ainda este ano, o complexo cultural deve levar dois anos para ser entregue à população.

 


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