Inclusão

Da caixa da infância à transformação de uma comunidade

Estimulados por histórias pessoais e atentos à exclusão social, coordenadores da Central Única das Favelas criam espaço cultural no bairro

14 de Abril de 2018 - 10h20 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

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Edson e Sandro coordenam o esforço da Cufa para montar um centro de cultura no Navegantes (Foto: Jô Folha - DP)

Sentado à beira da mesa rodeada por mil livros na pequena garagem do Navegantes que serve como sede da Central Única das Favelas (Cufa) em Pelotas, o rapper Sandro Mesquita, 46, lembra da decepção que teve ainda criança ao abrir uma grande caixa recebida do pai. Diante do pacote, a imaginação foi longe. Pensou em brinquedos que sonhava ter e, finalmente, estariam ali. Para decepção dele e do irmão gêmeo Edson, não era um jogo ou carro de controle remoto. Eram densos cinco volumes de uma enciclopédia. Uma frustração que, hoje, eles agradecem diariamente.

Foi a partir dos únicos livros que tiveram na infância e de uma frase do pai que ambos entenderam, anos depois, o tamanho do gesto. "Ele nos disse para valorizar, pois era a coisa mais importante que poderia nos dar em vida. Foi daqueles cinco livros que, de alguma forma, nasceu isso aqui. A gente multiplicou", diz Sandro, hoje acadêmico de Ciências Sociais na UFPel, apontando para as prateleiras. A partir do esforço dos irmãos, formou-se um acervo que vai de histórias infantis a calhamaços interpretando a legislação trabalhista.

Um esforço que vem desde 2009. Aos poucos, ouvindo as comunidades do Navegantes, do Fátima, da Balsa e do entorno, compreenderam que há carência de acesso à cultura. Não apenas livros. Oficinas de música, dança, computação, aulas de reforço. Atividades que deveriam existir mas, por negligência do Poder Público, foram deixadas de lado. "Em 2010 o governo do Estado investiu R$ 550 mil para construir um Centro de Convivência no bairro, com quadra, palco, salas multiuso. Passa lá para ver como está. O município abandonou, virou escombro", lamenta Edson, coordenador da Cufa.

O pouco que falta é muito
Na garagem que serve como sede à organização, com aproximadamente 15 metros quadrados, estão os livros, três computadores e 500 videoaulas. Tudo aguardando para que possa ser disponibilizado gratuitamente e o quanto antes a cerca de 80 mil pessoas da região. "Se tivéssemos o Centro de Convivência bem cuidado, aquele espaço seria o ideal, mas já que não temos, não dá para ficar esperando", projeta Sandro.

Porém, para que consigam abrir as portas do local à comunidade, precisam de bem pouco: não mais do que R$ 650,00 em tintas, telhas, tijolos e outros itens que permitam dar ao espaço a estrutura mínima necessária para abrigar as atividades a crianças, adolescentes, mulheres, idosos. Valor alto para a periferia, porém viável a doadores - empresários ou não - e que seria essencial na inclusão social de quem não teve oportunidades e na redução da violência que, somente em 2018, já fez sete vítimas fatais (todas por armas de fogo) no Navegantes, no Fátima ou na Balsa. Ou seja, no universo de 40 homicídios registrados na cidade, praticamente um em cada cinco é desta região

"O único modo de ascensão da periferia é através da educação, do esporte, da cultura. Este espaço é um caminho, um embrião para mudar vidas. Da mesma forma como foi uma dia para nós aquela caixa de enciclopédia ganha do nosso pai", lembra Sandro.

Como ajudar
Interessados em colaborar com doação de material para as obras, livros, computadores ou sendo voluntário para oficinas podem entrar em contato através dos telefones (53) 99168-9357 (Edson) ou (53) 98429-3060 (Sandro) ou pelo Facebook (www.fb.com/cufarspelotas).

A sede da Cufa fica na rua Passeio Um, 511, no Navegantes.


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