Feminicídio

Mulher é assassinada na Sanga Funda

Cleusa Maria Jardim Munhoz, 52, foi morta a pauladas dentro de sua própria casa

07 de Março de 2018 - 15h34 Corrigir A + A -

Por: Redação
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Caso aconteceu na rua 7 da Sanga Funda  (Foto: Heitor Araujo - DP)

Caso aconteceu na rua 7 da Sanga Funda (Foto: Heitor Araujo - DP)

Perícia foi chamada ao local  (Foto: Heitor Araujo - DP)

Perícia foi chamada ao local (Foto: Heitor Araujo - DP)

Atualizada às 19h41min

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, Cleusa Maria Jardim Munhoz, 52, foi assassinada a pauladas dentro da casa em que morava no loteamento Sanga Funda, no bairro Três Vendas, pelo companheiro. A vítima - dona de casa e mãe de três filhos, um deles menor de idade - estava na companhia de G.N.R., 56, quando foi atacada pelo homem com quem mantinha um relacionamento de pouco mais de dois anos. Após matar a companheira, G.N.R. trancou a casa e fugiu - de bicicleta - em direção ao município do Capão do Leão. Ele foi preso logo seguida por policiais da Brigada Militar, na BR-293.

Na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), o homem - autuado em flagrante por feminicídio - não deu declarações sobre a motivação do crime. Ele disse apenas que teria utilizado um pedaço de pau para assassinar a companheira. À BM, ele teria dito que Maria se mostrava insatisfeita com a relação. De acordo com agentes da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o local onde o crime foi praticado não apresentava sinais de luta corporal. A arma não foi localizada.

O corpo de Cleusa Maria foi encontrado pela filha de 33 anos. Ela seguia em direção à casa da mãe quando foi alertada por um vizinho de que havia algo estranho na residência da vítima. Ao chegar na frente da casa de Cleusa, Julciara Jardim viu sangue escorrendo por de baixo da porta do imóvel. “Ela era uma pessoa muito boa, não fazia mal para ninguém”, comentou. Julciara disse que já havia alertado a mãe a respeito do comportamento do padrasto. “Ele era muito ciumento, uma pessoa doente”, afirmou. Apesar do ciúme e das ameaças, Cleusa nunca havia prestado queixa à Polícia Civil contra G.N.R. Contra o acusado há um Termo Circunstanciado sobre ameaça ocorrida no ano 2000, época em que não existia a Lei Maria da Penha. “Nesse momento só sinto vontade de fazer justiça com as próprias mãos. O que ele fez com ela é covardia, não se faz com ninguém”, desabafou.

Cleusa Maria Jardim Munhoz é a terceira mulher assassinada em Pelotas desde o início do ano. O caso fica sob responsabilidade da DHPP. G.N.R. foi encaminhado ao Presídio Regional de Pelotas (PRP). Ela será sepultada nesta quinta-feira, no Cemitério São Lucas.

A titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), Maria Angélica Gentilini, ressalta a importância da denúncia. “É essencial não só para a investigação, mas para proteção da vítima”, frisou. Até o dia 28 de fevereiro, 516 boletins de ocorrência foram registrados na Especializada, a maioria deles por ameaça e lesão corporal; 419 inquéritos instaurados, cinco presos e 39 mandados de busca e apreensão foram cumpridos pelos policiais da Delegacia de Mulher.

No ano passado, a Deam instaurou 2.672 inquéritos policiais, sendo 2.383 remetidos ao Foro; 29 pessoas foram presas, 167 mandados de busca e apreensão cumpridos e 505 medidas protetivas solicitadas. Ao total, 3.084 mil ocorrências foram registradas.

Dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) sobre a violência praticada contra a mulher em 2017 revela que Pelotas é a segunda cidade do Estado com mais casos de agressão contra mulheres. No ano passado houve aumento de 16,5% se comparado a 2016, quando 696 haviam prestado queixa na Polícia Civil. O número de 811 vítimas de lesão corporal - 67,5 por mês - registrado em 2017, coloca a Princesa do Sul atrás, apenas, da capital - com mais de 3 mil mulheres agredidas.

Superação da violência doméstica
“Peguei minha filha, juntei minhas coisas e fui embora. No meu novo endereço, colei um cartaz com a foto dele para que ninguém do condomínio deixasse ele entrar.” O desabafo é de *Maria, nome fictício para preservar a identidade da vítima.

Com duas graduações no Ensino Superior e uma Especialização, ela foi agredida e estuprada pelo ex-companheiro com quem manteve relacionamento de 12 anos. Hoje, mais de dez anos depois da denúncia, época que não existia a Delegacia da Mulher nem a Lei Maria da Penha, ela garante que segue em frente. “É muito difícil. Ninguém vence isso sozinha. É preciso de acompanhamento psicológico e da rede de proteção”, contou. Apesar da superação, o medo da violência continua. “Desde então, eu não consegui me envolver com mais ninguém”, disse.

Professora, ela ensina sobre a violência doméstica nas escolas em que dá aula. “Acho importante que exista essa educação. Meus alunos relatam muitos episódios de violência que presenciam em suas casas. O que eu passei, fez com quem eu desse mais atenção para o assunto. A gente acha que só acontece com mulheres de classe baixa mas não, ela está em todos os lugares e coragem para denunciar não é fácil.”

Apesar dos avanços nas políticas públicas de violência contra a mulher, *Maria considera que ainda há muito para avançar. “Demos um salto muito grande. Pelotas é uma cidade com vasta rede de proteção, mas ainda assim a violência é alta. É preciso investir em educação e não só em repressão”, comentou.


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