Segurança

Acidentes de trabalho aumentam 64% em cinco anos em Pelotas

Serviços na área da saúde e indústria e beneficiamento de arroz são os setores mais preocupantes

07 de Março de 2018 - 07h02 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

Indústrias de arroz estão entre as que mais registram acidentes de trabalho (Foto: Infocenter DP)

Indústrias de arroz estão entre as que mais registram acidentes de trabalho (Foto: Infocenter DP)

Os números relacionados à segurança do trabalho em Pelotas nos últimos anos são preocupantes. Em comparação a 2012, a quantidade de acidentes notificados no ano passado cresceu 64%. Já os afastamentos das atividades por mais de 15 dias por conta de algum sinistro durante o serviço, aumentaram 17,3% ante 2015. Os dados fazem parte de um levantamento feito pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em todo o Brasil e acendem um alerta, especialmente para dois setores na cidade: nas arrozeiras e na área da saúde.

De acordo com o Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho do MPT, 2.579 pessoas sofreram algum acidente enquanto trabalhavam nos últimos seis anos. Somente no ano passado foram 538, uma média de três casos a cada dois dias. Bem superior às 328 ocorrências de 2012, menos de uma por dia. E coube ao setor da saúde ocupar o negativo primeiro lugar no ranking das atividades mais acidentadas, bem à frente da segunda colocada (veja gráfico). "É fruto de problemas de gestão. Na saúde as pessoas estão sujeitas a riscos, convivem sob forte stress, dobram jornadas, acumulam empregos. Sem contar que ainda recai com frequência sobre elas a pressão da falta de recursos para a saúde", avalia a procuradora do MPT em Pelotas, Rubia Canabarro. Segundo ela, já existe uma força-tarefa para fiscalização na saúde e que em breve deve atuar na cidade, a exemplo do que ocorre com as arrozeiras.

Aliás, é no trabalho pesado do beneficiamento e industrialização do arroz que está a maioria dos afastamentos prolongados por conta de acidentes. Das 278 solicitações de auxílio doença no ano passado, 21 foram feitas por funcionários destas empresas. Casos semelhantes ao de José, 35, que prefere não ter o nome verdadeiro publicado. Há pouco mais de duas semanas, enquanto trabalhava na regulagem de equipamentos dentro de um silo, teve a falange (ponta do dedo) indicador da mão esquerda decepada. Agora, aguarda perícia médica para saber quanto tempo terá que ficar afastado até cicatrizar o ferimento e recuperar os movimentos normais.

Há quatro anos na empresa, é o primeiro acidente que José sofre. Mas relata que o risco de problemas físicos é constante. "É bem comum dentro dos engenhos o afastamento temporário por problemas de saúde. Por causa do peso que carregamos ou da inalação do pó do arroz, que mesmo com a máscara acaba sendo respirado em alguns locais", conta.

Fiscalização e diálogo para reverter
Técnica em Segurança do Trabalho no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias e Cooperativas da Alimentação, Fernanda Castro Ribeiro afirma que o diálogo com funcionários e empregadores tem sido tão importante quanto o endurecimento do trabalho de supervisão da força-tarefa do MPT, Ministério do Trabalho e Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea).

"Conversamos com os empresário para conscientizá-los de que, além de fazer mal para a saúde do funcionário, isso representa prejuízo. É muito pior pagar um trabalhador afastado do que zelar pela sua segurança e saúde na empresa. Também falamos aos trabalhadores que se sofrerem um acidente haverá sequelas e cedo ou tarde serão substituídos. A empresa jamais abrirá um novo setor apenas para empregados amputados", explica.

Queda nas mortes
Se afastamentos e acidentes aumentam, há pelo menos uma boa notícia. A quantidade de mortes durante o trabalho vem reduzindo desde 2014, quando houve seis acidentes fatais. No ano passado uma única pessoa perdeu a vida conforme os registros do Ministério do Trabalho.

Para a procuradora do MPT, o dado é importante e mostra maior comprometimento dos empregadores com ações reais de prevenção. Contudo, prefere manter cautela. "Infelizmente não temos segurança de afirmar que o número seja tão baixo porque existe a possibilidade de subnotificação, já que os reflexos destes casos para as empresas são graves. Ainda assim, nossa observação é de que houve aumento da fiscalização e do compromisso das empresas em se posicionarem de forma prevencionista, o que é fundamental", avalia Rubia Canabarro.

Fique ligado
Na tarde desta quarta (7) MPT, Ministério do Trabalho e Crea promovem uma reunião técnica com 34 arrozeiras de Pelotas e região para apresentar detalhes da legislação e solucionar possíveis irregularidades no setor. O encontro acontece às 14h, no auditório Dom Antônio Zattera, da Universidade Católica de Pelotas (UCPel).

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